Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sábado, 21 de agosto de 2010
UM PRÉSTIMO

O amor tem muitos tentáculos. E tentações. E gestos, que constroem bens e arquitetam males.

O amor tem vários testículos. E úteros. E glúteos fartos e seios tímidos e membros flácidos e tesões múltiplos. Que engenheiram desastres e destroem felicidades.

Se é que você me entende, se é que ele me compreende, se é que eu mesmo me convenço, o amor provém milhares de desejos, retém milhões de frustrações, vai além do mais infinito mas também desce muito mais que ao rés do chão.

O amor é paraíso e inferno convivendo unânimes no mesmo tailleur, no mesmo terno - e é importante não confundir certas palavras com talher ou com ternura. Seria como misturar homem com legume, mulher com verdura.

O amor é sublime e chulo, redime os culpados, imprime seus marcos indeléveis, desculpa os redimidos, sublinha com seus fatos inesquecíveis.

O amor é em si cruel como ele só, mas também benfeitor, assim como todos nós pensamos que somos. O amor arma e desarma, ama e desama como respira, e quando não se inspira aí mesmo é que ele bate e rebate e maldiz e blasfema e xinga a mãe e os parceiros e os segundos e os terceiros e a linhagem inteira de quem quer que seja que lhe venha pela rente pela frente, emparelhado ao lado ou atrasado mas atrelado.

O amor é de uma lembrança inesquecível quando se quer diligentemente melancólico e glamorosamente saudosista. E é de uma terrível ausência quando se faz criminosamente beligerante e deliberadamente agressivo. O amor mata soprando o ferimento, ressuscita cravando a unhas no peito de quem ama, de quem diz que ama, de quem quer amar, de quem nunca viu na vida mas apareceu diante em momento inoportuno, não importa porquê ou qual ou quando ou como ou quem: o amor escolhe seus eleitos involuntariamente, uns ganham pétalas, outros arame farpado, todos ganham setas e daí em diante o amor quase sempre trai os perfeitos destinos. Ou seja: a prata pode vir a ser platina e o ouro se tornar urina.

O amor é raivoso e falso e nefasto, parente da desgraça e semente da chacina. O amor é charmoso e fiel e prático, crente de sua raça, um demente que não alucina. Mas não queira ver o amor pelas costas, não pense em ter o amor como aposta, só se você quer morrer seco enquanto chove, só se deseja secar a saliva enquanto beija. O amor não é bom, não é o melhor, não é o máximo mas é o que nos resta. O amor é imprescindível. Mas ele não presta.

 

marco/26.07.2010.

Domingo, 30 de agosto de 2009
INCENSO

dona louca que me dá seus pavilhões de orelhas e que me secreta e espelha em estojos de pó de arroz, como se fosse minha, minha cria, minha criação. feita se fosse a rinha aonde eu iria enfim a mim desafiar.
serva troncha, sacerdotisa erotizada que me reza as lágrimas e as risadas nos dias de chuva, nas noites desanuviadas, que me serve não caldos mas saladas, que me serve não carne mas palavras, que me serve de tudo e de nada.
eu te digo: meu berço é no avesso do meu próprio espelho, minha fronte mira a fonte de onde descomeço, meu terço é duplo, é múltiplo, é um arremesso como do pescador a rede em busca de peixe mas também do medo, para matar a fome tanto quanto o receio, que em ambos eu me desmeço , como é clara a noite do inocente vão e é negrume o dia do vil perverso.
te meço: coisa que me surge assim em meu endereço, tem um timbre pálido no destinatário, tem um gesto anônimo, que é meu sinônimo, eu que não dou nome aos uns, aos eles, aos elas, aos eus, aos dois. eu que me subjugo e que me sobrepujo, eu que conto as minhas lendas nesse alfarrábio roxo de tantas incelenças, amarelo ouro de tantos beijos monstros de paixão e desejo e vastidão de amor, beijos com requintes de saudade extrema, de carência de estima, de ternura que ainda procura a sua rima. eu que cato minhas prendas nas migalhas dos olhos de quem me quer mal, de quem me quer bom, de quem me quiser, enfim. eu que soletro uma a uma as letras de um acróstico mas não lhe dou um nome, não lhe dou um fim.
sem ter rumo , de tanta liberdade, o amor me diz tchau e segue puro mesmo manchado de nódoas de mentiras e inverdades, sempre cicatrizando o corpo dos cortes, interrupções e reticências, desmagoando a alma de golpes e pancadas, de seres e de estados.
coiso mestiço de imprudência, virulência e maus modos, cheia de indulgência, curiosidade e vertigem, sua coisa me invade. sei que não te pertenço e não te tenho em mim, é esse nosso laço. você não me persegue e eu sequer te caço. nós somos dois ateus beijando a mesma cruz.
e se você me quer eu te mereço. sou sol e pus, contra ou a favor do vento, sem lenço, nesse documento, te abraço.

marco/30.08.2009.

Domingo, 30 de agosto de 2009
ME SENTO EM MEU SÍTIO

não demarco territórios. oro a cada arco de passagem que ora surgem em meu caminho. levem a pontes ou cidadelas, transpasso a soleira e sigo sem meias-paradas, ou viro rio que se apega em breve enseada para depois retomar seu caminho, feito tempo que nunca pára. não me valem sacerdócios ou vargens de outras pragas. meu bem vem de muito além, de cismos matusalém, desdém não me traz mais mágoas. não me falem de equinócios, eclipses, caleidoscópios, sapientíssimos ou ignóbeis. minha sanha é permanência, sobreviver ao amor, que faz de besta os letrados, de vivos os inanimados, que faz de ralé os nobres. em minha trilha levo matilhas e não varas, dou aos meus cãos o meu osso, deixo desperolados os porcos. nunca fui soldado a nenhum ferro ou plataforma. sou meu escravo sendo meu dono, senda de toda minha colheita e estorvo. não é de mim nenhuma inveja, raiva, vingança. guardo em mim uma réstia de paz interna, que me governa através da miséria, máfia, desesperança. nunca fui de excelências e não é agora, neste momento de excrecências que vou por minha palavra a pouco. minha palavra sempre esteve além das regras, minha palavra sempre esteve em jogo. minha palavra respira nos bares, brilha nos altares, bica nos pomares, busca em todos os lugares os que possam ser lares para a poesia, para a palavra bem dita. amor é palavra bendita. te amo é certeza em minha vida. não suporto oratórios. deixo para outros os supositórios.

marco/30.08.2009.

Páginas
1 2 3 4 5 Próxima >  Última >>