Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 30 de outubro de 2009
UM BEIJO

quero um beijo molhado.
como se fosse terça-feira do próximo carnaval,
cheio de saliva, cerveja, suor.
e salgado do mar diante e em nós.
e doce como o sonho bom que teima em voltar,
assim como os pesadelos.
ruim como a viagem má, bom como um lance legal.
quero um beijo abstrato e bem carnal:
estrelas no céu da boca e células se contorcendo,
linguagens de todos os países
e ritmos e cores e doses,
e vidas e, ainda mais pensar se
se consegue a compreensão do infinito.
quero um beijo mítico. um gesto místico, idílico.
quero um beijo inédito, cálido ou fervente,
mágico ou concreto, dramático e sem lástima
como devem ser os mais deliciosos e curtidos beijos.
elástico e com estática como servem a nós
os mais preciosos e elétricos e relaxantes beijos.
quero um beijo; um só talvez – talvez – um só baste.
se for haste para tanta bandeira
que ainda há que se altear,
para cantos e prantos e mistérios e quebrantos;
para quantos espantos me leva
a fascinidade de um beijo?
quero um beijo; talvez muitos mais,
sem ser talvez demais,
sem se chegar ao cúmulo.
mas se for um movimento puro
de nervos e músculos,
porque não um beijo maiúsculo?
quero um beijo feminino, um beijo másculo,
um beijo que uma o que eu penso e o que eu acho,
o que eu creio e o que eu devaneio,
o lazer e o trágico, o humor e o dramático,
o real e o mágico, o prazer e o que lastimo,
eu que sou um náufrago mas nado
e não me dissemino.
quero um beijo, feito primeiro e único,
em meus lábios grossos
os teus lábios lindos.

marco/30.10.2009.

Segunda, 26 de outubro de 2009
TE DIRIA

quando fico sem texto eu arrumo um pretexto para uma pobre rima rica, para um beijo em sua testa ou seu queixo, já que sua boca está além do que pode o meu desejo, além do que possuo de malícia lógica ou estratégia mística.
mas é que olhos de água são poucos para minha sede, são poucos os que me detém, e muito menos aqueles que me podem fazer bem. quando cismo comigo mesmo eu nem caço e nem pesco, nem laço nem nó, nem me arrebato mas também não me impeço. mas seus olhos são, silenciosamente, mil molhos de chaves a me chamar a atenção. mais que olhos são silvos, de repente, você simplesmente me move sem me dizer a direção.
boa sensação para quem, que nem eu, já sabe de cor as palavras que ainda nem percebeu que seriam aquelas próprias para esse momento. boa emoção para quem, e nem sei quem, já sabe no couro as palavras que ainda não aconteceram na boca, na língua, expostas como saliva vazando dos lábios mas que soam perfeitas.
no ar. quando fico sem versos eu fico no ar. nada melhor para um perdido do que uma rima em ar. são tantos os verbos e as verborragias. mas não esqueço do seu olho, me tolho de esperar ver de novo, nesse espelho, novas crases em minha futura alegria.
quando fico sem texto não aprumo sentidos e deixo ao relento os versos que te diria.

marco/26.10.2009.

Segunda, 26 de outubro de 2009
PRAZERES

quero te dizer milhões de vezes: não faça cerimônia, lamba os beiços ou dê de ombros, faça as unhas em minha sala: tenho também éter e amônia, além da usual acetona, tenho divãs e soumiers, sofás, namoradeiras e banquinhos de pau. venha sempre, a pausa pode ser breve ou o vôo longo, a gente pode usar o tapete ou um ultraleve, para flainar pelo espaço que a todos pertence. mas também não há nada que impeça de treparmos no muro, no claro ou no escuro, a cor melhor será aquela que nos apetece.
quero te dizer que sempre te desejo: bons votos, boas vindas e retornos, novas sílabas e frases feitas para cada oportunidade: mãe de cada porto. te desejo sempre e muito: boas falas e destinos, fadas árabes, gnomos palestinos, ou tudo ao contrário se contudo não nos desfizermos de nossos instintos. tudo ao mesmo tempo se nós não demolirmos nossos nobres recintos, aonde recebemos um ao outro com tatos e toques recíprocos. um desejo é sempre um beijo em um rastro de uma estrela cadente. mas eu te desejo: vinhos finos e água ardente, o meu uivo e o seu sibilar de serpente, entre muitos nós somos uns que se compreendem, uns tantos que temem o dilúvio, uns poucos que amam as enchentes.
quero te ter mais uns zilhões de vezes.

marco/26.10.2009.

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