Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
domingo, 8 de novembro de 2009
VÍRGULAS E RETICÊNCIAS

o melhor de amar e escrever,
é poder ser grave e solene,
mentir ou iludir conforme a fase,
conforme a frase,
déspota ou indigente,
ter o poder de poder,
disfarçar as rugas nos olhos,
ocultar os sentimentos,
por vírgulas em todos os versos,
que não necessitam deles,
o mesmo melhor de amar e ser poeta,
é saber brincar com destinos,
voltar a ser menino,
sofrer de dor de cotovelo,
se embolar nesse novelo,
sem ser gato ou fuso,
é querer um horizonte,
mesmo que seja a parede,
ou a porta em frente,
e não escalar os montes,
morros, montanhas,
não descansar nos lagos,
e se esforçar nos mares, nas marés,
piscinas olímpicas e outras atividades,
menos físicas e mais mediúnicas,
mais para tísicas do que para saúdes,
o bom de poder tocar esse instrumento,
que é tocar as palavras como um bando,
de cordeiros ou ovelhas,
uma vara de porcos, uma colméia de abelhas,
dizendo o óbvio e ditando,
o próximo evangelho,
com base naquele mesmo velho ditame,
que diz que é vinho o que é sangue,
que será sangue o que hoje é vinho,
que cada instante é,
íntimo e preciso,
especial e definido,
que cada palavra poderá,
a cada segundo,
ser um silêncio definitivo...

marco/8.11.2009.
Domingo, 8 de novembro de 2009
ESQUETE
meu coração hoje em dia é deserto insalubre, deserto gelado e não de febre, deserto sem horizontes, sem limites, sem oásis, sem fogueiras ou fontes, certo de que o fim há de vir, qualquer dia desses, e espera que esse dia seja o mais próximo possível da minha última palavra sim. meu coração ontem em dia cada vez mais era um músculo do que um nervo sensível. estou ficando duro, obtuso, mudo diante da realidade. hoje sou um homem maduro em que os pelos escuros, de um dia para o outro, se revelam brancos. e estou falando não só da cabeça mas também das mãos, braços, barba, peito, narinas, pentelhos e cuelhos.
meu coração envelheceu sem pontes. por isso, talvez, hoje ele não se leva a nada. meu coração ateu não tem força nem propriedade para acreditar em mais nada. nem acreditar em mais tudo. muito menos creditar à alguma coisa a se chamar destino a sua pobre e pequena desgraça.
hoje meu coração é sem graça. não te pega na mão, não te diz um gracejo, não te leva para o sofá, muito menos para a cama no quarto dos fundos aonde essa hora ninguém vai lá mesmo. hoje meu coração despreza furacões, desdenha de paixões, se ri de tusinames, repele amor de pele, afronta legiões para se manter incólume e solitário e desgraçado e desassombrado de sua mesma espécie.
meu coração hoje é um troço escroto, um rei morto sobre os braços de sua plebe.


marco/7.11.2009.

Sexta, 6 de novembro de 2009
HOMICÍDIO CULPOSO

 
não, eu não vou te matar com um tiro na nuca (não vou chegar tão perto), não vou jurar que você era a única (mas sem ser indiscreto), que me traía (e que eu sabia), não vou dizer que mais nunca irei amar alguém (sou infeliz mas não sou louco ao ponto de ficar maluco).
não, eu não sou de matar assim, nem me vingo do amor mal amado com ciscos de lâminas ou chumbo grosso. sou daqueles que se acalmam mas nunca se esquecem. sou um cara que deixa sua marra pra depois, quando você menos esperar: surpresa má.
sou uma criatura sem mágoas mas com um senso de justiça pouco peculiar, principalmente ao poder público judiciário, notóriamente injusto e ineficiente. sou uma pessoa que te quer dente por olho, fio por pavio, rente por pentes de metralhadoras no teu coração, teu coração sempre ardente.
não, eu não escrevo só pra te matar. quero te assassinar de outro jeito, acho que você merece maiores requintes de torturas e sacrifícios, para ver esse amor morrer. para ver nesse amor quem mente, quem é cleópatra e quem é serpente. a mim me apetece um homicídio cheio de resquícios, indícios palpáveis e psicológicos, parapsicológicos, prenúncios cólicos não lógicos, enxurradas de pistas encriminatórias que tem o amor como vítima.
não, eu não te enterro assim, simplesmente, apedrejada e basta? não, quero mais ferros em brasas e tridentes, preparo a cova rasa e as iscas para os roedores e as moscas, não há de restar nem casca das suas sementes. sou do clã dos ingênuos homicidas, dos homens bombas feéricos, dos camicases coléricos, dos suicidas macambúzios que só se finitam após liquidarem muitos.
é um custo te esperar morrer. em mim. é como se nunca tivesse fim a hora agônica entre a tarde e a noite, é como se fosse um eterno e brusco lusco-fusco.
eu nem te queria dizer que dói, nem queria te lembrar que tudo isso se passa a sós.
eu nem te queria mais viver ou matar ou morrer ou renascer. Mas olha o que fiz!: ignóbia tentativa de transformar giz em sangue, otária ardileza que pretende comungar hóstia e mangue, obtusa violência que só fere a quem mais se quer ver incólume.
nem te queria mais, no entanto ainda te carrego em minha alma pobre.
você me sobra e por isso eu sossobro.
e não quero saber de dicionários, as línguas que me lambem me aportuguesam e abrasileram todos os mais íntimos sentidos.
só não vou te matar agora porque você, na hora aghá, me dobra.
até amanhã!

marco/06.11.2009.

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