Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sábado,30 de abril de 2011
MINHAS MARÉS

 

Tenho um tranqüilo ardiloso

E um tormento ansioso

Em rever você.

Uma mistura de mar de ressaca

Com a lagoa mais pacata

Vindo de cada lado do corpo,

Sendo um sem fim de sensações

Que me afogam e ressuscitam

Que me sufocam de água salgada

E ao mesmo tempo me respiram

Salivas doces e embriagadas.

Tenho uma ardilosa tranqüilidade

E uma ansiosa tormenta

A me conduzir nesses mares.

Mas sei o porto qual é,

Sei onde meu corpo se acostará,

Sei onde o ritmo do círculo do mundo

Irá se ancorar.

Para rever você

Mulher

De todas as minhas marés.
 

marco/17.02.2011.

Terça, 6 de abril de 2010
PERGUNTAS (e déspotas respostas)

As pessoas com quem converso, enquanto bebo sozinho em um bar: são amigos, amigas?

As pessoas com quem me deito, às vezes, umas vezes, em um, três ou cinco dias, de anos em anos: são amores, são amadas, são amor?

A essas pessoas eu tenho amizade, amor, tesão? Ou são somente fuga da solidão, fragilidade pessoal de momento, são frases fugazes ou realmente um argumento?

E eu para elas: o que sou, que serei, o que venho sendo?

Na verdade, importa muito ou nada com quem você conversa? Ou com quem você se deita? Importa qualquer coisa se rola um sentimento ou apenas uma boa conduta social? Que balança vem a mim e vai medir o que é efêmero ou o que pode vir a ser crucial?

Talvez importe o quê você conversa, o quê transpira ou seca quando com alguém se deita, talvez seja importante um quê do crer na possibilidade da nascença de uma amizade ou de um amor delicioso e complexo, deliciada e perplexa, terna e sincera, impetuoso e ardente. Talvez.

Mas será que posso parar para pensar a cada tal vez que me aconteça: sentar em um bar, sentir um olhar, vibrar em uma pequena e sóbria discussão, arrepiar por uma imensa e fugaz sensação?

Será que os meus, os nossos semelhantes – às vezes tão dessemelhantes – poderão se estancar em suas trajetórias pessoais para pensar em mim? Em nós?

Só sei que sou um, que reconhece: um santo sem mito, um diabo sem ritos, um anjo sem asas, um deus sem rezas, um delirante sem metas, um pregoeiro sem massas, um índio sem apito.

E quem merece? Todos nós que podemos ser tolos o bastante sem sermos ridículos, nós que podemos amar ainda que seja um sofisma íntimo, nós que sejamos capazes de beber à amizade e gozar o amor mesmo que seja ínfimo.

Nós, as pessoas, merecem o que são, mesmo aquelas que não tem a noção de que cada ser vivente é único e específico, escravo do egoísmo e refém do sacrifício, seres que sobrevivem pelo suor e não por nenhum selo divino.

A cada pergunta e resposta eu me reconheço. E me recomeço. E me findo.

 

marco/06.04.2010.

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