Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Domingo, 30 de maio de 2010
SÉRIA COISA

 

Eu não brinco com o amor.

Sei que além de poder aliciar, envolver, magoar, deliciar, dilacerar, embriagar, e mais outras tantas rimas em ar ou em outros ares, sei do seu poder absoluto e fama resoluta em não brincar em serviço. É isso: o amor só e somente se diverte com todos os envolvidos, menos com si mesmo. O amor não, não é traidor de primeira ordem, ele só trai aos outros, quer dizer, aos que se deixam levar e trazer por suas marés imprevisíveis e temperamentais, lunações distantes das vias lácteas dos ingênuos participantes que se entregam a seu dispor, achando que estão achando mas na verdade estão se perdendo em mais e mais amor, o que quer dizer: se desfazendo de si e cedendo ao léo, ao vento e relento, seus sentimentos.

Já desesperei e gargalhei com o amor, por isso não negocio mais com ele.

Sei que quando é mais sincero depois falseia e se se faz de falso me vem e confessa as maiores verdades, inclusive aquelas inenarráveis, insuspeitadas, alucinadas, aquelas coisas todas que nunca se deve dizer, nem mesmo no final dos tempos, mesmo ao mais amado dos seres. O amor é assim: nos força a cometer frases que nunca seriam ditas, pensamentos nunca ardilados, suores frios que nunca existiriam, febres de cios doídas mais que os nervos ciáticos.

Eu não gosto muito mesmo de amar o amor. Por isso vivo perto dele.

Sei que é preciso tomar conta, espionar, subornar, seduzir, desmoralizar o amor.

Porque o amor não é decente, é amoral, maledicente, é absolutamente cruel e incoerente, magicamente fiel e ao mesmo tempo capaz de nos deixar ao abandono por dias intermináveis, anos, séculos e milênios. Gosto de amar mas não o amor, essa alegoria monstruosa. Gosto de amar gentes, bichos, natureza, sonhos.

Eu não brinco com o amor, somente brindo com ele.

Já chorei lutos e tomei porres, já xinguei corruptos e bradei palavras de morte lado a lado com o  amor. Já chegou um tempo que já me é bastante saber que nunca verei sua verdadeira face, jamais terei em meu paladar o seu real sabor, o perfume exato em meu extrato, a superfície velosa ou asperosa em minhas impressões digitais.

Meu compromisso com o amor é sempre deixá-lo para que ele me faça voltar, é sempre voltar para ter um porque de partir, é usar uma taça que tenho nas mãos e saber que ela um dia vai se partir e crer que essa é a primária e eterna razão de esculpir, de versar, de cantar, de amar, de existir.

 

marco/30.05.2010.

Quinta, 20 de maio de 2010
QUERO ALGUÉM


quero alguém com quem repartir minhas riquezas: música, poesia, sensibilidade à flor dos poros, corpo gasto mas sábio, alma farta mas cabível de novos astrolábios, palavras para repetir e reinventar, carinhos máximos como aqueles com que sonham os prisioneiros e os outros que ainda não os adivinharam, embora sejam os mais livres dos hereges e cristãos. quero alguém com quem dividir minhas despesas: a dor que advém da crença em falsas lendas; a responsabilidade de não iludir ninguém; o peso da carga inúmera que se esquarteja em mil sílabas, a cada palavra dada, a toda sentença recebida; e outras inumeráveis minúcias do ser e do estar, pedras ou espinhos na estrada, serras ou desertos no caminho. quero alguém sincero no riso ou no choro, de quem possa me despedir ou dar bom dia sem um versículo de dúvida que nós somos os mesmos, na ida e na volta, no grito ou na canção, na dor ou na luxúria, no rente do normal ou na mais temente coisa espúria. quero alguém que me valha, que me saiba, que risque o fogo em minha palha e depois me arremesse águas, que me arregace a alma, me cure e desespere, me desfrute e que prospere junto a mim. como musgo em nossas pedras fundamentais, lodo em nosso solo de humanidade, bolor que traz para a vida a penicilina e não a escatológica virose fatal. porque estamos vivos e neste ato quero um alguém soberano sem ser ditador, rainha sem se fazer de déspota, quero uma mulher linda porque saberá ter beleza de ser e de estar com aquele outro ser que lhe gosta, porque saberá lindamente amadurecer diante de quem deverá usufruir do seu sabor porque a ama e exclama.

 

marco/maio.2010.

 

Quinta, 20 de maio de 2010
COISAS ASSIM

 

Coisas de encantos: não que seja anormal ou sobrenatural mas a extrema necessidade de me aproximar de você e te tocar e te falar qualquer coisa, mesmo não importante, esta é uma coisa visceral que às vezes até me espanta, e tanto mais quando sinto e sei que exatamente de você emana a mesma vontade e vibração, a mesma falta de coragem de dar o primeiro passo, gesto, toque, sugesta.

Coisas de humanos: sedução não é só algo que imploramos aos outros mas que também infligimos a nós mesmos, coisa de carne fraca, sentimentos desequilibrados, carência afetiva, efetivo carinho para doar, sei lá...

Coisas de apuro: de quem tem pra dar, com certeza, com presteza e amor maduro. Às vezes nunca mais quero te ver, outras, momento seguinte, não quero me desgrudar de você.

Coisas de santos, e diabos, anjos, de amantes, de crianças, de sábios, coisa que chama relâmpagos e trovoadas, bonanças e tragédias inesperadas, um começo de amor ou um final de ilusão sem remédio.

Coisas da vida: minha vinda, sua ida; perder e partir é como poder e não ir; é feito deixar, consentir, e se revoltar por não ter mais um espelho em que se refletir.

 

marco/07.03.2010.

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