Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quarta, 08 de junho de 2011
FORTALEZA



Às vezes me armo contra possíveis assaltos. Sei que o amor teima em agir escamoteado, chega feito umidade e se infiltra entre os pelos, se integra aos vãos do corpo, conquista neurônios, suas frestas e seus sonhos, constrói novas obras, destrói o que a ele não agrada, o amor é capa e espada, te cobre e espeta, desperta e seda, se faz benfeitor mas dita a dura rotina do dia a dia, te traz um sabor de menta mas é só dele a hortelã, te apraz um cheiro jasmim mas é só, se esvai com o vento promessas e intentos, remessas de afeto, descargas de alentos.

Às vezes me visto de fortalezas para aparar possíveis invasões. Mas gosto de apalpar os perigos, acarinhar meus cistos, revisitar seqüelas, aquelas que contém os maiores valores de vida e amores, gosto de tentear velhos sonhos e rever o que foi delírio, o que era indício, o que se fez vício, saber se hoje, que ainda não é enfim, corro riscos, troço dos pequenos ciscos, escorro por quais corpos, me roço em que abraços, se promíscuo idealista ou remisso eremita.

Em minha cidadela sem elos ou celas, em meu quarto vedado mas com ar próprio e luz ativa, aponto para novos horizontes, pronto para outras belezas, rombo nas muralhas de minha fortaleza, vigorosa fraqueza, vitoriosa franqueza. 

 

marco/06.06.2011.

Terça, 2 de junho de 2010
PARA SERES E ESTADOS

 

Entre

a casa do ser

e a sala

de estar

está lá.

 

entre a casa

de ser

e a sala de estar

lá estará:

 

um imenso corredor

repleto de pequenas portas

com milhares de escaninhos

esperando correspondências.

 

entre

e a casa

é sua.

 

entre

o que gela

e o que sua,

entre o ser

e o estar

estarão a espera

e a procura,

estarão à espera

e à procura,

estará a promessa

de uma grande varanda

de frente para o mar,

e um dia virá

todo sol, toda lua.

 

um dia estaremos

lá,

seremos

quem sabe serenos,

criaturas

finalmente

nuas.

 

marco/27.05.2010.

para Marta Lúcia.

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