Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sábado, 31 de julho de 2010
CORPO ASTRAL

 

 Tenho pensado, lembrado você, que sempre é para mim uma presença doce, uma mulher um tanto tempo ausente mas que descobri sempre presente em mim.

Porque se parece comigo na sua potência de ausências e tem ao mesmo tempo o poder de se manter fiel ao que é em si e em mim.

Talvez não mais que nós dois possamos entender as entre palavras deste texto, talvez haja algum tipo de amor meio raro trespassado entre as tramas das sílabas dessa tapeçaria que não quer ter fim e nem bem se lembra – para quê?- de um tal começo, se já sabemos nossos meios.

Mas sei que aqui há um homem e aí uma mulher que se querem bem apesar e além de todas as passageiras tormentas, rudes ou lentas, que nos levam aos pólos do mundo, e de todos os ventos e velas que a todo saldo, de calor ou frio, sabem que o tempo é que é um nosso passageiro. Nós é que o levamos a nos encontrar ou passar perto de nós, como um calafrio.

Hoje eu sei, minha querida, meu amor, minha amiga, que o que há entre nós tem mais valor do que qualquer moeda, jura, cédula, promessa. O que sobrevive entre e em nós dois é pedra. Daquelas de fonte, de olho d’água, de monolito ancestral implantado no coração e que para sempre vai jorrar águas de prazer, de lágrimas, de banhos, chuvas, mares, suores, de cachoeiras e estertores e síncopes, mesmo à distância, e que talvez e por isso mesmo, mantenha em minha – na sua – memória, aquela fragrância que guardamos para estes momentos ímpares.

Mas, humanamente óbvio, quero te dizer que gostaria de ter você aqui e agora, em corpo sólido, nesse exato momento, só para te olhar. E rever teu olhar em mim. E para te acariciar com o meu melhor carinho ótimo (Um homem e uma mulher que são fontes, quem deve perguntar a eles de onde ou para aonde migram?).

Mas isto, finalmente, é só um texto que quer dizer que te quer, e que te quero, e que, no mínimo, ternura nunca é ruim.

 

marco/10.07.2010.

para Lucia Raggi.

segunda, 26 de julho de 2010
EXÍLIO (A Capela)

 

Não há culpa nem dolo:

Nem quem conquistou quem

Nem quem seduziu alguém.

O resto agora é só um solo.

Cada um num pólo

Um frio intenso

Para nós que somos trópicos.

 

marco/12.07.2010.

 

Quarta, 7 de julho de 2010
PESADELO RECORRENTE

 

Eu não quero que o amor: o meu, o seu, o nosso, o de todos os nossos, seja um amor desatado, carente de todos os ossos e carnes e tendões e nervos e neurônios que fazem de um ser, ser humano e não uma infinidade de filamentos ligados aleatóriamente; que fazem de nós uns dois que só se desejam e se amam animalescamente, que fazem estas palavras serem somente mais uma página passada de minha, sua, nossas, de todas as nossas vidas.

Eu não quero o amor me surpreendendo, meio a madrugada, dizendo coisas sem às nem trunfo, gritando coisas sem passado ou rumo, me dando socos sem sentimento, ocos rumores e gestos e métodos que vão se repetir sem mérito ou êxito, sem épico ou êxodo, sem mesmo a mínima métrica do que pode ser amor, quero dizer: sem carinho ou ao menos menosprezo.

Já disse antes e repito: amar não é para qualquer um. E não é para qualquer dois. Amar é para quem realmente quer fazer do amor um companheiro, para quem quer viver suas virtudes e mazelas com grandeza e para isso tem que se livrar de pequenas rusgas, imensos ciúmes, intensos remorsos, renitentes costumes, dinossáuricas pulgas, infinitésimos gorilas nos sótãos e porões íntimos.

Eu não quero o amor para mim e nem o desejo a ninguém. Porque o amor acalenta mas rasga, alimenta mas dilacera, o amor inventa um novo mundo que não há e depois o faz desacontecer com a tranqüilidade de quem aborta um sonho, com a propriedade de quem se sente dono, com a iniqüidade de quem senta num trono e pensa que é rei ou rainha de alguma coisa.

Eu não quero que o amor: o que dôo, o que me dói, o meu doado à toa, o seu doído em vão, o nosso perdido num turbilhão de sonhos sem promessas, de promessas sem sonhos; não quero o que eu não posso querer: mas que o amor não me acorde de repente, assustadoramente, me surrando o corpo e a alma: como um pesadelo recorrente.

Aquele que não se quer rever nunca mais, que não se quer reviver para sempre, aquela face do amor trágica, dramática, expressão péssima de um grande ator ou atriz.

Eu não quero mais nunca, nenhuma vez mais, o infinito amor, à minha frente, temendo, tremendo por um triz.

 

marco/05.07.2010.

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