Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quarta, 29 de setembro de 2010
EX VOTO

 

Faço votos que você esteja e seja feliz.

Mas creio e sei que é uma indecência a gente que se ama tanto, não poder ficar junto. Mas é porque decência nunca foi mesmo palavra notável em nossa sociedade de poder público.

E a gente se acostuma a ficar mudo, a não reclamar em alta voz, a pensar que brigar para ser feliz é falta de educação, e confunde o que é geral e vizinhança com o nosso extremo e prazeroso poder lúbrico e púbico.

E mais que isso, nosso querer se afagar e beijar e roçar e reinventar um namoro do qual tem também direito os cidadãos maduros. Aliás, os adolescentes e demais jovens tem muito que aprender sobre carícias e delícias, seja um dar as mãos ou propícias e rápidas investidas nas políticas internas, a meu ver, todas essas, coisas de cidadãos lúdicos.

Mas creio e sei que é uma calamidade nós que nos amamos tanto, não estarmos juntos. Mas é que acostumamos a habitar distâncias e hoje para nós qualquer palavra se tornou fenda tectônica ou falha abissal. E porque ética nunca foi mesmo palavra louvável nas associações de quem tem poderes públicos.

E mais que isso, nós todos nos felicitamos em poder migrar pelos esgotos quando nos permitimos dar uns poucos e escondidos arrotos, no meio da madrugada, feito marginais nas raias dos dias, feito sujeitos impuros. Veja bem, meu amor, já não posso fumar tabaco no mesmo local onde se vende esta droga, mas governantes podem roubar os valores das taxas a que somos impostos. E eu te beijar na boca no meio da avenida, ao sol do meio dia, parece a todos uma lástima, uma falta de respeito àquela moral não legítima, porém cristã, que nos catequisa desde sempre até os presentes dias.

Mas no entanto porém entretanto contudo, sem saber onde quando porque ou por que meio, semeio ao vento uma ira e sei que a próxima senda não será tão generosa quanto a última promessa que nos fizemos, nós que nos amamos e acendemos a cada piscada de olho uma nova lenda, uma outra inédita fórmula de transcendência. Nós que não só não ascendemos aos léus como também desistimos de nós porque as tabulas rasas dos sofrimentos da vida nos fizeram cair de quatro, cair no anonimato, perder a dignidade de ter paciência e estímulo.

Nós que nos amamos e, para o pouco ou tanto, não precisamos de nenhum prêmio nobel de ciência ou paz.

E nem de pretensas excelências. Muito menos de facínoras ditando um amor que eles próprios nem mesmo sabem da existência.

Voto em nós.

O resto é réstia, é rastro de ratos, céu sem astros. 

 

marco/26.09.2010.

Quarta, 1 de setembro de 2010
VERDADE E ILUSÃO

Tudo o que eu escrevo é verdade. Mas também pode ser a verdade da ficção. De repente eu não sonho tanto, eu nem sofro tanto, eu é apenas um pronome que se instala no meu texto e estala os dedos e faz uma mágica de tantas e tamanhas proporções.  Mas é difícil ver e estar com alguém que se ama, ao largo, no mesmo ambiente, e não ser instantaneamente, imediatamente, executivamente passional. Então, para que males piores não aflorem, melhor sair à francesa, ficar somente junto com aquela grande irmã, de natureza, que é a solidão. Bom senso é se retirar do centro dos acontecimentos quando pressinto que o que pode haver de futuro é só maremoto, tempestade, hecatombe, turbilhão. Melhor recolher meus sentimentos nobres, que ainda restam, do que distribuir uns poucos e desafortunados sonhos, cobres de gorjeta. Tudo o que te digo é verdade. Inclusive o meu confesso amor por você, inclusive o meu desejo de não estar hoje, no mais fedido e absurdo e tépido e amargoso e detestável e ilúcido e inenarrável estado que faz da minha alma uma sarjeta. Somente porque te vi e não posso, sei que não te devo estender a mão.    A verdade é plena e saudável, mesmo quando é ficção. Mentir um amor é indesculpável, mesmo quando, às vezes, nós achamos que o amor não tem razão.

 

marco/31.07.2010. 

Terça, 3 de agosto de 2010
EM CHEIO

Talvez felicidade tenha se tornado um tabu, um obstáculo não propício de se transpor, e ao mesmo tempo, algo assim como se fosse um recorde a ser a todo momento superado, uma árvore mangueira que houvesse que dar frutas eternamente e cada vez mais, a cada safra.

Mas ser feliz não é uma obra nem uma arte. Não se aprende na escola e não vem de inspiração. Ser feliz é uma obrigação tão obstinada para o ser humano que qualquer um que se veja na mínima perspectiva de não cumprir este dito se sente um completo derrotado.

Talvez a felicidade seja um alvo que se tenha que conquistar a cada tiro. Mas também, talvez, ser feliz seja simplesmente se deixar ser um alvo aberto, procurando um jeito de ser atingindo perfeitamente, na mosca, em cheio.

[hoje, sou feliz porque vejo em uma você a figura, a mosca do alvo que pode até ser, até o final da vida, uma nova e definitiva chance de também ser para alguém um poço fundo, um moço que em tudo seja um infinito. e uma premissa: já que a ponta da flecha é o final de uma reta cuja a meta quase sempre nunca se cumpre, ou seja: o alvo é sempre a promessa que a certeira vitória obtenha o amor de uma perene festa].

 

 

marco/22.06.2010.

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