Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quarta, 17 de novembro de 2010
SACRAMENTO

 

O amor não tem perdão. Uma vez amado, está sacrificado. Fadado está. Você não sabe o tanto que eu te amo o quanto mais bem longe de mim. Meus arroubos são tiros no escuro, são balas perdidas, crimes passionais, gestos obtusos. O amor não tem perdão mas tem prazer: a cada vez que te executo é com o requinte de um serial killer, a dedicação do carrasco que afia sua lâmina  com paciência, tempos antes do patíbulo, com toda sapiência e esmero que você merece e terá sempre. O amor não tem perdão mas tem lazer: aponta para você com luzes de laser e te distingue no meio de qualquer multidão, lança a carga elétrica na sua cadeira, ferve letal na injeção de sua veia. Mas principalmente o amor se diverte, quando se diversifica: quando te passa a mão com malícia, quando te rouba o sono nas noites etílicas, quando te sussurra bom dia como se não fosse tarde e ele não fosse instantaneamente atrás de uma outra delícia. O amor não tem razão mas tem muito  o que fazer: destruir fronteiras, desarmar minas terrestres e aéreas, criar maneirismos, salivar em seu ouvido zilhões de besteiras, brotar oásis, inventar miragens, detonar com gargalhadas um choro de tantas lágrimas que poderá te desidratar para a vida inteira. O amor não é mantra, é zoeira. O amor não é ceia, é cama. O amor não odeia, ele simplesmente não se ama.

No amor a tortura está por um triz.

Djavan 

 

 

marco/17.11.2010.

Sexta, 13 de novembro de 2010
SECESSÃO

 

Não é necessária a guerra. Todas as separações, repartições, intercessões, são viáveis sem agressões pessoais ou de distritos ou municípios, estados unidos ou desmandados, estados físicos ou de espírito.

Todas as expressões de amor ou de ódio, de prazer ou desgosto, são notáveis e perceptíveis; cada um se serve por seu próprio gosto desses cardápios, escolhe o que quer deglutir e apreciar.

Não é imprescindível a birra, o cismo, a cisma. Todas as ameaças são lícitas, todas as porradas serão incluídas no rol das ternuras devidas.

Não há mais pudor mas também nem tanto ardor em dizer uma verdade objetiva: eu te amo. E não há guerras, partidos, milícias, exércitos, exercícios, excrutínios, fantasias ou estrupícios que me impeçam de afirmar e repetir: eu te amo.

Mas essa coisa pouca e este sentimento muito, que tem paz em si, é esta coisa toda que digo agora e – que ninguém mais leia – é só para ti.

 

marco/13.11.2010.

Quinta, 28 de outubro de 2010
CASCA

 

 

Olha na minha cara

E veja que não há máscara

Só mesmo o peso da praga

A mácula em minha pérola

O verso perdendo a métrica

A tétrica dor do abandono

 

Eu que me danei de mim

Quando ensandeci por ti

Não pude ver em pleno sonho

O futuro mais medonho

Que me aguardou de tocaia

O amor outra vez se furtou

O amor me roubou meio ao sono

Depois já foi tarde demais

E me deixou na estrada

 

Olha na minha cara

E veja que não há páscoa

Nem natal ou ano novo,

Carnaval ou nova safra

Há somente um tremor

Uma nuvem áspera

Um prenúncio de ruga

Uma espera sem trégua

Pela próxima mágoa. 

 

marco/28.10.2010.

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