Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sábado, 30 de abril de 2011
ADEUS

 

Preciso me ausentar de você para poder escrever qualquer coisa sobre amor que não seja sua voz, seu teor, seu sabor, nosso prazer.

Preciso me escusar de te tocar com pele ou com memória para me fazer crer e reafirmar que o amor é uma célula única: origem do afeto e do querer bem e do cuidado e do desejo e da saudade e do velar e do prazer e da amizade. O amor é um vírus somado a uma bactéria que uma vez contraídos, a criatura dela não se despede até o final dos tempos. Sem doença, o amor é uma eterna crença para os seus infames fiéis.

Preciso me ver longe de você para enxergar melhor: a você, a mim mesmo e o tal do amor.  Por isso faço brincadeiras, palhaçadas com rimas, traquinagens com frases, sambas em poemas, pecados em orações, e em longos textos idiossincrasias.

Por isso preciso fingir, por força da honra, já que o poeta é um fingidor, necessito sublimar a verdade para poder falar e escrever o que eu já te digo, para outros ouvidos. E então é mesmo isso.

O amor é uma flor roxa que nasce no coração das trouxas de roupas repletas de meias furadas e cuecas sem elástico, camisas com golas de batom, bermudas de mar, sungas de cloro, calças descoradas, gravatas que foram parar no lugar errado.

Preciso sempre falar de amor porque ele é a primazia mater. Porque sem amor nem eu nem você é nada. E a humanidade se perde. E a poesia não verve. E nós, animais, não vivemos em paz.

Preciso me afastar de você para poder depois me apegar. Falar de amor é sempre exagerado. E não falar de amor é um clímax malfadado. 

 

marco/30.04.2011.

Sábado, 30 de abril de 2011
PONTO E VÍRGULA

 

Há um ponto

Entre eu e você

Que nos separa e distancia

O vôo para o pólo oposto

A crase que ninguém sabia

 

Um ponto

Entre nós tem haver

E nos une e torna gêmeos

Cantiga de fazer sono

Tambor de todos os gêneros

 

Há o que eu divido

E o que somo

Do que me arredio

E o que domo

 

Há o que multiplico

E o que é menos

Do que me alivio

E o que temo

 

Há um ponto

E uma vírgula

Entre nós

Um me torna um ser tonto

E outra me traz uma epístola. 

 

marco/30.04.2011.

Sábado,30 de abril de 2011
QUERO VOCÊ

 

Quero dançar em cima da mesa, cantar bem alto, dizer besteiras, beber, comer, rever amigos, mas principalmente beijar contigo, que a saudade está demais, não cabe mais essa solidão sem eira. Quero andar nu na varanda, tomar banho de chuva e cachoeira, me aconchegar, me desvairar, raiar na ponta de uma estrela, me batizar com o luar, te bendizer com o sol na moleira. Quero acreditar que vai voltar, aquela que meu coração deseja, quero me estender feito um mar, todo lugar para você navegar, pernoitar no meu corpo de esteira, quero te acarinhar com mãos mornas de lã, te afagar com pele de tênue manhã, te relar com os calos que a distância incha, te salgar com o suor que me brotar, temperar com o condimento que te atinja em cheio e meio. Quero um carnaval, um comício, uma planície e um precipício, um canto maior, uma orquestra sinfônica e uma seresta no ouvido, tudo de improviso, tudo que você quiser, tudo que eu conseguir descobrir que nos traz fé, que nos faz ondas da mesma água, tudo o que me disritmie e apazigue, que nos tenha homem e mulher sacrossantos, quero tudo em que crer e que crie. 

 

marco/30.04.2011.

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