Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 26 de maio de 2011
LUZEIRO

 

Tudo é a luz. No texto ou na fotografia. No amor também.

Preto e branco, amarelo, vermelho e outros vernizes e raças e sangues de tintas. Tudo é sombra e luminosidade, matizes de cinzas e incêndios de fogueiras.

Veja bem: o branco no preto: cal na madrugada, na pele tênue de um filme em celulóide ou na lisura de uma tela digital. O negro no branco: piche na neve, carvão de letras e palavras no branco da folha alva de papel ou em um monitor eletrônico.

E reveja muito bem: no amor é a mesma coisa, lousa onde começamos a inscrever cousas, quadro negro sob o giz, bastão branco sobre o alvo escuro, fazendo histórias, criando mitos, afirmando o não dito, desafiando o repetido.

E tudo é da cor da transparência a que faz jus, merecimento da pertinência e sinceridade, justiça que não é cega, justeza do que é exato, imagem que se eleva, palavra que a memória guarda, amor que não tarda ou falha.

Atrás de cada texto há outros sentidos falando em surdina, atrás de cada máscara há um brilho certo de retinas, atrás de cada amor há muito mais que o corpo pode expressar, que o ser consegue exalar com seus gestos e rimas, muito do homem já se mede no infante, muito da mulher está na pele da menina.

E toda luz é vento, é maré, é lua e sol, é o impasse entre clarões e trevas, cidade e selva, o que se deixa ao léu e o que se determina, toda sorte de palavras e imagens e sentimentos que tem luz própria e sua íntima sina. E toda luz é tesouro e excremento, fragilidade e cimento, flor do lácio, flor de lótus, flor do pálido ou rubro coração, meio caminho entre o que inicia e encerra, flash que fica na memória eterna, relâmpago e raio, susto e desmaio.

Tudo é a luz e toda luz é um mágico momento no movimento do universo. 

 

marco/26.05.2011.

Quarta, 25 de maio de 2011
ÁPORO

 

Oro por seu corpo e mente, penso que sei o que é mais flagrante e urgente, faço de você o meu mais couro e osso, enlaço esse amor em mil teias, pespontos, urdiduras, entre façanhas e lendas.

Soro por seu corpo e mente, desde o final do princípio até o seio do amor patente. Sei o que vem e o que sai em cada poro, sou teu esporo esposo, sei que você é um sopro em minhas chagas, e nós sobreviventes.

E quando cai a noite e eu mais eu estou comigo e mais estou inciso é quando mais te preciso com sua luz de vermelhos nas unhas, de frescor delicado nos lábios, com sua umidade presente no sexo, quando não temos parentes, quando não temos vizinhos, quando não tememos nada, nem arbítrios nem patentes, nem oráculos ou adivinhos. Somos só eu e você os místicos, os amantes sublimes.

Não sei se esse clamor é um pretexto, um inseto ou uma dúvida, título do texto, mãe da criatura.

Sei é que o que me há é puro ar que envolve minha aura e deve alcançar a sua área de viver e se dar. Sei que isso devia ser o dever de nós todos: a meta de querer ser querido e profundamente amar.

Coro quando você diz que me ama, quando você me afogueia a boca, o corpo e me chama para bem mais que um encontro, para uma célula-tronco, monstro idílio entre nós.

Moro no seu corpo e mente quem quiser dizer que não. Pois que nosso amor é paciente, posto que esse amor é aguardente que embriaga mas não queima, se perde e se acha, em líquidos, sólidos ou pós.

O resto são devaneios, o que há entre nós é um amor que se perpetua à sós, não quer exemplo, não escolhe idade ou fase, só é um sentimento que se debate e rói entre moinhos de vento e pedras de mós, que faz cada momento sendo fonte, olho d’água, riacho, rio grande e foz.

Adoro o que traz seu corpo e sua mente, seu tronco, ramos, folhas, flores, seu todo e suas sementes. 

 

marco/14.05.2011.

Terça, 24 de maio de 2011
CRÉDULO

 

meu amor não é uma rocha

é uma polvorosa

um girassol que perde o giro

quando ouve um seu grito

de prazer

 

um por do sol

que não vai para o japão

e fica conosco

até o amanhecer

 

meu amor

não é um concreto

tem um jeito barrento

do se envolve e revolve

o corpo e alma da pessoa

que ama

e respira junto

e transpira único

 

meu amor não é

um concerto de quarteto

de madeiras

é mais um batuque

com timbre de telhas velhas

cheiro de erva sidreira

lembranças de outras épocas

 

meu amor não é

e não pensa o que é ser

 

porque pouco pensa e

muito age

envolto em sonho

ou miragem

posto e solto na realidade

 

meu amor é um cão que ladra

e tenta roubar o ruído da rua

como se sua  voz mais robusta

fosse te trazer para mais

junto a mim

 

como se o amor

fosse preciso

em seus inícios e fins

confins e recomeços

 

marco/24.05.2011.

Páginas
1 2 3 4 5 Próxima >  Última >>