Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 26 de julho de 2011
ALELOS


 

Para muitas coisas é preciso um talento específico: esportes, desenho, dança, textos, teatro, música, estudos acadêmicos. Para o amor também. Para outras não: respirar, sorrir, caminhar são coisas do instinto ou da imitação. Para amar, um mal necessário, é mister um bem criado, um prazer intrínseco, uma crença mítica, um querer doado. Gostar é mais simples, já que é uma opinião e não um sentimento. Mas amor é danação sublime, levitação na barra pesada, é alquimia num caldeirão que cozinha tanto carne como farinha, tanto alma como assombração, nacos de lógica com ópios de vingança, bocados de coração com fios de intestino. Então é preciso nitidez e transparência, vontade, força, abnegação, vividez e paciência. E bom humor e corpo são e noção de valor e temperamento e devoção, fé e afeição, sensibilidade em fartas doses, uma pitada de sorte e outra de raciocínio, uma preparação de atleta e uma sapiência de monge. Para amar é essencial traçar as linhas tortas sobre as quais vão voar as setas retas. O amor é quase vulgar e quase científico, plebeu e nobre, a dama e o vagabundo, o demo explícito e o santo obscuro, onde há lugar para o bem, para o mal, para o bom, para o mau, um carnaval e uma páscoa de infinitos festejos de desejos e fecundos arrependimentos defuntos. Para algumas coisas é imprescindível alelos coincidentes, sentimentos paralelos, vontades concorrentes, os cinco e o sexto sentido, o expresso desejo de um vínculo, a groselha e o absinto, o veneno e o remédio em seu teor. Sem dramas, sem mágicas, sem tédios, sem nada que não possa ser espelho do melhor. Não nasce uma fruta sem a flor, sem o corpo da planta, sem suas raízes, nada medra de nós por acaso: nem sementes nem olor. 

marco/26.07.2011.

Terça, 26 de julho de 2011
FUSOS


 

Não sei como vai ser o futuro do pretérito mas meu coração está velho para novas surpresas, sustos, desenganos, caminhos turvos, túneis escuros. Teço meus algodões e sedas com a emergência de quem precisa de um agasalho mas com o temperamento preciso de quando não se quer que a trama desfie no próximo laço. Meu coração está exausto de pedir por favor, de temer perder, de enviuvar.

Não sei como será o futuro do futuro mas sei que ele virá e nada haverá de deter o passo das horas, dos dias, claros ou cinzentos, os diferentes fusos entre nós, os tempos e lugares que passam, mesmo sem você ou eu, sem se fiar na roca torta da paixão ou se alinhar em zig zag por qualquer greenwich do amor. Meu coração está rendado de temperos de melaços e amargos, tonto de tanto tentar acertar os ponteiros dos sentimentos.

Sou um homem casado com o dramático, cansado de comédias sem graça, nublado por estações de medo e cólera, salpicado de granizo e sal, requentado por poeira e sol, enamorado sem resposta de deuses, amoroso sem afagos de magos. Meu coração está receoso de uma chuva miúda, desconfiado de um horizonte claro. Sou um homem quieto em seu canto, em seus cantos, pouco sorriso, nenhum cio, nem meridiano nem meio fio, quase calado. 

 

marco/26.07.2011.

Quarta, 20 de julho de 2011
MUITAS SAUDADES

 

 

Uma saudade é um fio frágil que o vento arrebenta mas também é corrente de navio que tem cais e sempre se sustenta. Uma saudade é um maremoto dentro da vontade, um furacão varrendo o corpo e a mente. Uma saudade é uma necessidade, não um ornamento.

É que me bate nos cascos uma exigência não só de falar e trocar vozes através das distâncias mas de ver os seus pelos dos braços arrepiarem quando te sussurro na orelha, sentir a sutil fragrância que se expande, diferenciada daquela de seu usual perfume, do seu atual suor, de seu cheiro permanente, me faz vontade roçar as peles e delas ver se revelar um quente, um aroma, um textura, um gosto, uma literatura que só mesmo presentes, os dois, podem criar, ler as palavras, conjugar perfeito os verbos, escolher os substantivos próprios, os adjetivos certos para cada momento.

É que me parecem fracas as âncoras que me permanecem nessas águas de aqui e fico achando e traçando rumos de e para ti, se faz forte a maré de te sentir. E bons ventos me querem levar ao seu encontro, e bons ares nos querem livres e soltos. Uma saudade tem em si a força inexplicável de uma tormenta e a sensata bonança que o amor acalenta.

Mas é que me invadem golpes de ar, ondas de calor, rompantes de luar, infames sóis a pino a me dilacerar a pele e as vísceras e o sentimento, como se eu fosse um ator, como se fosse eu o autor dessa trama.

É que careço menos paisagem e mais corpo, muito menos janelas e mais a justa modelagem de seu espírito em carne e osso. É que quero ver de perto e próximo o salivar do seu sorriso, seu dedo estalar quando entrelaça o meu, seu pé se coçar, seu olho piscar, os cabelos voarem, o vestida assanhar, os dentes brilharem, os músculos retesarem, o sol do seu ser se molhar de muito prazer ou de tanto rir.

Uma saudade é que é a verdadeira justiça. Não sente ou possui saudade aquele a que o amor não atiça.


 

marco/20.07.2011.

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