Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 18 de agosto de 2011
PROPRIEDADE

 

Andam me havendo umas saudades boas, daquelas que adotam tanto andar em são paulo na garoa como encarar uma bicicletada ao sol no  rio em torno da lagoa, via epitácio pessoa, ou em salvador, circulando a lapa e chegando ao dique do itororó, na fonte ainda destruída mas sempre nova, crescendo para chegar ao pelourinho.

Andam e correm em mim umas saudades que me desandam e me recorrem feito massa de bolo mal batido, feito filho contando pela quinta vez o erro acontecido. E eu fico cego, pasmo, morto de tão frágil, vivo de mais forte do que posso e digo, sou um argonauta desvendando mistérios nunca revelados, sou um hemisfério solto do meu outro, girando no espaço, um desgovernado. Como a vergonha desse meu país e de tantos mais outros, que não se sabem amar e ter coragem de se vacinar contra a chacina da corrupção, a sina da erupção de facínoras, sem ver a cara do ser comum que habita e constrói com fé e necessidade cada dia a cada dia, porque não pode ser mais tarde, cada carência a cada ato realizada porque não se trata de discurso mas de fato.

Andam me ocorrendo saudades loucas de um dia reencontrar gentes e não só estábulos de humanos crentes que são ótimos, perfeitos, férteis, másculos, convincentes, fêmeas ardentes, capachos machos, estrelas decadentes num universo apático.

Andam me ardendo saudades drásticas: do seu perfume, do seu sussurro quando te beijo, daquele arrume entre os lençóis, do nosso lume mesmo às escuras, das minhas linhas e seus anzóis, da nossa rinha sem luta, sem bainha ou cós, uma saudade candente e fresca, ardilosa e pertinente, só nossa, uma saudade flagrante e gostosa, sempre independente de tudo aquilo que não é silo de amor, do que é nojo e dejeto, e não cabe em nossas frases e versos, em nossa poesia ou prosa.

Andam me acontecendo saudades muito próprias. 

 

marco/01.08.2011.

Quinta, 18 de agosto de 2011
LÍQUIDO E CERTO

 


Quero te falar de coisas aquosas, de delícias de mucosas, de botões e pétalas de rosas, às vezes também vermelhas sangue, amarelas ouro, brancas em paz. Coisas que me transbordam de saliva a boca e me melam de suor as partes e membros inteiros e me molham com sabor de janeiro a dezembro, a cada pensamento, aos poucos e aos pedaços, me malham a todo ato, muito corpo e muita alma, pleno, intenso em nossos espaços, de asas, conchas, de amálgama.

Quero te contar coisas religiosamente dedicadas ao prazer de amar com voracidade e calma, com exatidão descomposturada, com aplicada afeição, com tesão sem contenção, de corpo livre e alma lavada. Coisas de uma costura que alinhava nossas diferenças e semelhanças, num beco ou na cama, reflexos nas poças, imagens refletidas nas torrentes de silêncios e gemidos, ardências e alívios, carências e instintos, ferozes, velozes, galopantes, masculinas, femininos, mostras de quando tudo é permitido desde o profundo abissal até à flor d’água.

Quero te ativar, te eletrizar, te amansar, te invadir, distanciar, te engolir, te golfar, e permitir o tudo e retornar ao nada, quando nós somos somente pés antes do primeiro degrau da escada, da escalada, do prazer que muita vez se assemelha com tortura, da quase dor que se desvenda da extrema gostosura, da profunda fossa das filipinas ou do ápice do altíssimo himalaia, você ave de rapina nos bicos de meus mamilos, eu cão ladino farejando por baixo de sua saia.

Quero te repousar em meu peito de lagoa e catarata, te navegar os estreitos e restingas e baías em chuvas de respingos ou enchentes às saraivadas, você a quem chamo de minha, de quem fiz minha dona, você a criança e a madona, a beata e a sacerdotisa, que me alforria e me doma, a você quero mostrar mais que palavras. Com uma possível hóstia de luz, com uma nutritiva gosma de água, como uma forma de me traduzir, como num jeito inteiro de me dar, feito o desejo que se fez luzir, feito um sedento que chegou à fonte não só para beber mas para se iluminar. 

 

marco/03.08.2011.

Quinta, 18 de agosto de 2011
UMAS POUCAS PALAVRAS

 

Quero te falar de coisas brandas porém caudalosas, um beijo demorado, um cisco de saliva de língua rápida e lépida em sua nuca, em seu flanco de perna, um arrastar de palma de mão encilhado em sua coxa, um cílio de artelho em suas partes mais íntimas, insinuando prazer e delícias que nem precisam ser vistas mas sentidas caso a caso, lado a lado.

Quero te contar as coisas mais absurdas, não as que passam pela minha cabeça mas as que ficam  nas minhas certezas de te amar com precisão de quem precisa, com precisão executiva de um cirurgião te examinado desde os poros até as mais recônditas vísceras, porque o amor não escolhe hora ou lugar para visitas ou habitação, o amor é belo olho e às vezes difíceis tripas, o amor é um cego que enxerga com exatidão realidades mais mistas e místicas.

Mas na verdade não quero te explicar nada de novo, nada que já não seja claro como a clara e gema, nada de glória ou estorvo nessa nossa vida de rinha. Quero é não ter palavras, me consumir em fogos que você arder, em maremotos que me banhem e afoguem, em cataclismos, hecatombes, dependências e vícios de você.

Sou um quadro negro sujeito a seus traços, página branca ansiando seus desenhos e números e decalques de nomes na pele e séries de carinhos e novos rascunhos e antigos segredos mais sábios, sou um campo imenso pronto para suas sementes e arados.

E por isso quero mesmo é este sentimento que nos enfarta de vontade de mais respirar, sentir, viver, coisa de amigos e amados.

Essa coisa que contigo é todo bem querer, coisa de homem e mulher, sempre únicos e diversos, sempre velhos companheiros e novos namorados. 

 

marco/03.08.2011.

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