Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 30 de setembro de 2011
DONDE


 

De onde brota o sumo do desejo? De alguma saliência em nossos corpos de rocha, pele, nervos e folhagem ou de uma brecha em nossas almas prenhes de platôs e precipícios, voçorocas e caatingas? De onde explode a ode límpida e aquosa do desejo, a gosma intensa e olorosa, a parte suarenta e fascinante, o néctar salobroso, a seiva de cáustico e saboroso odor, de onde mina o oleante mel do vigor do desejo? E para quê?

E de onde ele não mais flui, quando deixa de nutrir, e porque? Pode-se tornar um mistério essas indagações mais do raciocínio do que do sentimento, pode-se podar quando se queira essas fontes que gotejam as expressões líquidas do prazer? E para quê? E porque?

De onde golfa a raiva amara, quando o amor acaba, de onde o desespero se desencava e o ódio acende e a mágoa grassa?

Que mágica deslinda a boa nova e de onde se desdobra a desgraça da má palavra? 

 

marco/15.09.2011.

Quarta, 21 de setembro de 2011
OS MUTANTES


 

Algo mudou: o brilho em meu olhar, o fogo em seu corpo, o frio arrepio na espinha, o quente suor no rosto. O riso do espontâneo, a lágrima da emoção, o tato da carícia, o gemido vindo do fundo da sensação, algo mudou.

A flor da ternura resiste mas o que será do fruto da paixão? Onde descarrilou dos paralelos a carne da malícia, onde perdeu o azimute o silêncio após a exaustão do prazer?

Algo mudou e não deixou rastro sensível, endereço visível, sentimento que se permute por outro: seu olhar com seus brilhos que mais pareceram latidos de bem vindo, meu corpo com seus fogos que exultaram línguas de labaredas, o lastro dos anseios, o alisar dos pelos, o despentear dos cabelos, algo mudou.

Na superfície da candura, no profundo de alguma das formas do amor, algo mudou. Ou se transmutou. 

 

marco/14.09.2011.

Domingo, 04 de setembro de 2011
ABRAÇO E BEIJO

 

Você é bendita quando bandida que me surpreende surgindo debaixo do vão da escada, tocaia de carinho e afeição, quando pula em meu corpo, salta em minha cama, sempre solto estou para você que me assalta num susto justo de justeza e de justiça, porque há saudade, porque há encaixe pleno entre nós.

Você é benvinda sempre, quando chega num zás de relâmpago ou em passos leves e vagarosos, com sabor de menta ou cheiro de carambolas, rosto em riste de seriedade ou moleca sapeca gargalhando

suas peripécias, você que é a mais ardilosa e a mais sincera, feiticeira, maga, bruxa e companheira, fada, simples e esdrúxula, sabe o custo da distância e os prazos do tempo, você que me mostra e ensina o amor escancarado em sentidos e sentimentos.

Você é a divina e vulgar, a mulher mais linda que me toca desses jeitos sutis e ferrenhos, com mãos de lã e tato áspero de casca das mais frondosas mangueiras, com atos cálidos e gestos vigorosos, seivas densas de seringueiras e salivas saborosas de romã, você que não mede esforços para o carinho e o prazer, mas cede espaços para a meditação e o entendimento.

Você que é dona e, por isso, toma conta de seu bem, você que doma e sabe ser danada e também dominada pelos meus instintos e manhas, dama dada ao prazer, demo prestes a se exorcizar, divisão e soma, príapo e cona, fonte da multiplicação dos poemas, musa e tema, cadeado e senha, avena que contempla sonhos, com sua natureza de canções e flores, caverna que me guarda o mais íntimos e recônditos instrumentos de princípios, meios e fins.

Você é bem falada, bem escrita, bem fadada, bem infinita, infinda em suas idas e vindas, você é bem do meu jeito e me ajeita para eu ser do seu feitio, homem esguio que me guio por seus mapas traçados, por meus quereres aos seus abraçados. 

 

marco/02.09.2011.

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