Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 19 de outubro de 2011
DEDICAÇÃO

 

Te peço que venha, com a destemperança de quem sabe que outra lua cheia só daqui a um tempo, quando outro ciclo se fechar, ou abrir, quando outra lua ou sol florir no mesmo horizonte mas deslocados um pouco de lugar, nessas rotações e translações que os astros e nós efetuamos em torno de nós mesmos e de tantos outros corpos, celestes e terrenos, entre tantas avenidas e quintais, entre tantos entretantos e poréms e celacantos e maremotos, por entre e fora de vários motivos, versos e cantos.

Te espero que não venha, com a velha certeza de me haver uma surpresa que me desencante e se faça presente o que não espero, mas que gostaria que me fosse vero, ou seja: a sua figura em minha porta, o seu semblante em minha cara, o seu sangue na aorta, sua palavra em minha fala, todas as sílabas novas e antigas ínguas, misturando com tempero nossas línguas.

Me despeço como se fossem cinzas, ressuscito como se fosse justo, reitero o amor como se já não bastasse, me tolero a mim mesmo e canto e danço mais um inédito bolero, me esmero em ser seu como eu te sinto minha, só para mostrar esta dedicação, só para me refazer mais uma vez em comunhão, somente para sempre ser o ser que ama e manter esse meu dom.

Porque no fundo o que eu quero dizer é que te preciso, porque não quero mesmo nada entre nós nunca findo ou fingido, porque o máximo é o desejo, e a realidade é mesmo o ínfimo mínimo.

Te inverno só para fingir que eu sou aquele verão prometido, um quê de olhar furtivo, um reles pecado consentido, aquele desigual porque não se alinha ou se alinhava ou é cerzido em seu normal mas que tem trânsito livre em seus sentidos.

Te meço entre meu próximo passo e a visão do flagrante precipício.

Porque, já sei, de você, cada vez que me despeço, você se torna o meu novo início. 

 

marco/19.10.2011.

Terça, 04 de outubro de 2011
SAUDÁVEL


 

Às vezes a saudade é uma tomada de fôlego, uma tomada de câmera para vislumbrar outro ângulo de uma mesma cena, uma tomada em longo ou curto circuito eletrizando o sentimento, uma tomada de consciência das distâncias, dos tempos, dos elementos, toques, paladares, visões e fragrâncias, e como nos envolvem, se desenvolvem e nos devolvem bênçãos, bem mais do que os quatro ventos.

Às vezes a vivência da saudade é um momento para saber de nós o que é desejo e o que é necessidade, o que é vontade de rever e estar e o que é ter urgência, estado crítico de precisar: um ponto fixo entre o poente e a aurora, ambos lindos e propícios à reflexão.

Às vezes digo sim e me traio, outras afirmo não e divago. A saudade não é amor, não é carência, não é precisão. A saudade é um perfume, um extrato.

 

p.s. – eu te saúdo, eu te salvo em cada chegada e partida, nós nos damos saúde, salvas a cada abraço, beijo, ato de  amor perfeito.

marco/27.08.2011.

Sábado, 01 de outubro de 2011
DESCANSO



Gosto quando encosto a cabeça em seu ombro, fuço sua nuca, acaricio seu seio e durmo.Gosto quando você se estreita, deita a cabeça em meu colo, brinca com meu umbigo, alisa minhas coxas e dorme.
Nesses momentos qualquer maior movimento é demasiado, a respiração deve ser densa mas compassada, não há delírios de espírito ou tentações da carne. Mas há um fogo que arde, uma saliva que invade as bocas, um ar que aroma as narinas, um aqueduto de sangue brando brotando nas veias, um balançar de rede nos nervos e músculos, inclusive no coração, inclusive no púbico. E tudo é tão somente comunhão íntima, sentimento único.
Gosto quando me enrosco com você em manobras inéditas, várias idas e voltas em parafuso, artes de trapézio, céleres ou pausados, respirando suores e perfumes absurdos.
Gosto da bela bonança e da boa tempestade, da fresca brisa e da fértil chuva, quando, às vezes, perco as coordenadas, uivo para o sol, gano para a lua.
Gosto do descanso porque ele é um entre, um intervalo entre nós, após uma saudável luta, preparando sábio um novo futuro embate de corpos que, por ora, flutuam.

 *

Gosto também da lembrança, que faz o sentimento redivivo, para sempre ou por quando nos houver memória. Gosto de amar ontem, agora e futuramente. 

 

marco/23.08.2011.

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