Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 27 de janeiro de 2012
OBSÉQUIO

 

 

Te agradeço

Pelo caminho aberto

Para os meus próximos erros

Por me deixar

Me fazer mastigar, roer, ratear

Meus gastos tendões e nervos

 

Te agradeço

Pelo passado

Presente ofertado sem medos

Por me assustar

Me fazer desatar, suar, destilar

As lágrimas presas no lenço

 

Águas de sal ou de chuva

Carga feliz ou tortura

Coisa molhada

Que pra eternidade é minha

É sua

 

Te agradeço

Pelo caminho aberto

Pelo destino incerto

Tão longe, tão perto 

 

marco.

(estes versos foram musicados por Paulo Ciranda).

Sexta, 20 de janeiro de 2012
FALÁCIA

 

O amor sente. Falta de carinho, de sexo, o amor sente falta de ar. Sente fome e sede, calor e frio, se ressente de solidão, pressente companhia, o amor é um presente cheio de enfeites, um objeto tosco de decoração, um coração num cordão no pescoço, um cachorro morto fedendo no meio fio. O amor ouve vozes, canta odes, cala sempre que pode. O amor sente raiva e ódio, sente gosto de estrume, de cianureto de sódio, o amor sente.

O amor mente. 

 

marco.

20.01.2012.

04:23h.

Segunda, 16 de janeiro de 2012
COLOSTRO


Você bem sabe, você que é mãe e soube dar à luz outros humanos, você sabe, assim como num templo cabe, quando é matriz e séde, a fé e a sabedoria, a meditação e a alforria do tempo e do espaço, enquanto lá estamos, no colo do solo sagrado que é a genitora e a capela mor, a mulher com vitrais coloridos e iluminados, a sé com seios fartos para sua dinastia de crédulos.
Você sabe bem, do bem sacramentado em cada gesto, em cada púlpito, do aço da faca de cada bom pensamento, do concreto da massa de cada alimento. Você sabe o que é fundamento, raízes dos minérios vitais e dos metais dos talheres e enxadas de todo dia.
Você sabe o que se acha que se perde, a cada movimento, quando se pisca os olhos e se encontra a escuridão e se perde a luz, mesmo que só por aquele momento. Você sabe o que se perde, quando se acha que o horizonte basta, que o dia de hoje não terá amanhã, mesmo com chuva ou sol, com companhia ou solidão.
Todos tem bens capazes de nos levar aos céus dos delírios, às fronteiras dos paraísos, a êxtases tão extremos que parecem inaugurar a extinção do infinito. Todos nós temos males que nos fazem transpor a sintaxe do mais querido, quebrar com culpa indolor a pétala de cristal do amor mais intrínseco.
Você sabe o gosto amargo e nutritivo do colostro, você que sabe o que é ter em si óvulo e placenta, o que é gestar, criar, alimentar uma nova vida.
Eu só sei o que é ser parido, amamentado, tratado, o que é ser amigo, irmão, namorado, marido. Eu só sei doar o grito para exigir ou implorar o que preciso. 

 

marco.

16.01.2012

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