Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 26 de abril de 2012
QUE QUÊ

 

O fogo que aquece

O gelo que queima

A água que afoga

O vento que açoita

 

O vento que roça

A água que limpa

O gelo que dilui

O fogo que cozinha

 

O fogo que ilumina

O gelo que desincha

A água que evapora

O vento que cega

 

O vento que carrega

A água que inunda

O gelo que aiceberga

O fogo que acinza

 

E o amor que alimenta

O amor que intimida

O amor que desespera

O amor que envelhece

E mina

 

E o amor

Que alimenta o amor

Que intimida o amor

Que desespera o amor

Que envelhece e mina

 

É mina
 

marco.

26.04.2012.

Terça, 24 de abril de 2012
INSTINTO

 

Existe entre nós alguma espécie de amor que se exprime na pele, mais que no olho ou nas palavras, que se exime de requintes lógicos mas exige o núcleo vital do contato direto dos poros ao coração, da pressão arterial aos neurônios, da tensão muscular ao estertor tectônico do prazer, às vezes somente pressentido, desenhado nos sentidos, adivinhando e já sabendo o brilho do suor, o cheiro do ardor, o hálito da exclamação, o encarniçado esforço e o descansado corpo após os gozos.

Há entre nós fome e sede, coisa que uma vez talvez saciada, se renova em si mesma e se repete: esse moinho que carece ventos, esse oceano que suga os rios, esse desejo que se faz demente, esse destino quase desatino.

Por isso ninguém pede trégua, nenhum de nós quer descanso, não fazemos fogo à toa, senão para nos aquecer ou cozinhar nas panelas. Gostamos de coisas loucas, de poucas roupas, de inventar ininterruptamente novos sensores para todas as possibilidades de inéditas sensações e matérias, somos feitos de memória e curiosidade, de história e descobrimentos, de métricas justas e de delírios imensos.

Entre nós, a expressão do amor tatua suas mensagens, faz febre, traz vertigens e miragens inimagináveis, rompe metáforas, desconsidera teses, vive do que respira livremente do mundo todo e dos viventes; essa força de amor não tem academia, mistura os vernáculos e as línguas em nossas bocas que gemem e ganem e uivam e traduzem a mais sincera e pura verdade humana, sensitiva.

Houve, há e haverá entre nós esse mutual pacto de natureza precisamente hedônica e preciosamente amorosa e amiga.

Existiu, existe e existirá entre nós esse divino e infernal amor correspondido: através de tato, de cartas nas mangas, sussurros no ouvido, suores noturnos, olhares no alvo, olfato apurado, ousados paladares e todos os sextos sentidos.

Entre nós o amor é homem e mulher, com seus mil elementos, mas principalmente um intuitivo e livre animal. Um bicho feliz.

 

marco.

24.04.2012.

Terça, 24 de abril de 2012
PROVA DO ARTISTA

 

Eu te fotografo

Como a um detalhe

Ou panorâmica paisagem

Entre minúcias e horizontes

Poros pêlos pele

Sonhos pelos ares

Momentâneo gesto

Cisco no seu olho

Instantânea luz

Sombra nos cabelos

Claro de desejo

Nus estão seus ombros

 

E eu te documento

E eu te registro

Dentro de meu olho

Sagaz e sinistro

Eu te faço bela

E te ilumino

Eu te acarinho

Mesmo à distância

Flashes como estrelas

Lentes focos filtros

 

Eu te fotografo

Só que não revelo

Guardo na memória

Um longo novelo

Como quem irmana

Calma e desespero

Como só quem ama

Sabe que é eterno

Te prender no tempo 

 

marco/31.12.2011.

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