Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Segunda, 4 de janeiro de 2013
PROSA

 

meu ar é ir.

mesmo imerso na possível felicidade plena, certa, imensa: o dom é sair. e espalhar venturas ótimas, boas incertezas. é que o amor é uma coisa tensa, quando se faz; uma coisa lassa quando se goza; uma coisa só, que é uma só, quando se se reúne e se aparta de nós, de nós dois e de nós mesmos.

meu mar é ir.

mesmo seguro em um querido porto, com sustento e alimento, com caução e embarcação: meu som é voar. e espanar pelos éteres os sentimentos de sacramentos e blasfêmias, brincadeiras das filosofias e das ciências.

meu lugar é ir.

mesmo porque quando saio, voo, caminho, rastejo; nunca te deixo. me volto para meu espelho, te vejo, me volto para você, não há jamais.

meu estar é ir.

mesmo vendo o que vir, o que vir a ver, aqui e além; te amar é o valioso de me permitir, é mais que precioso, é para mim preciso. viver é um pouco de tudo, um tudo para poucos, ir até o fim e tornar ao início.

meu amar é ir.

 

[sei que você é seta, sei que você é alvo, sei que você é cega, sei que você é alva, sei que você carrega em si o que cura e salva, sei que você não nega, em mim o que enforca e afoga. sei quanto me tolera, sei o quanto me adora, um tato que se esfrega, um trato que se apavora.]

 

meu ar é ir.

para estar aonde estou agora.

 

09.01.2013.

Domingo, 3 de janeiro de 2013
TEMPESTADE



o amor persiste como um dever. resiste como um náufrago. trabalha e sua como um condenado. batalha e luta como um desenganado.
o sangue ainda há de correr nas veias e fora delas, as marés e correntezas hão de salvar corpos e tornar outros afogados, a tralha da vida há de se acumular e escorrer das costas, as malhas das redes hão de trazer pescados e repousar os cansaços.
o amor existe como um saber, não um contato: um sentimento concreto em um ser abstrato. coexiste como uma fé, não um contrato: um fantasma discreto em um navio afundado.
o ar ainda há de inflar os pulmões e as velas dos barcos, as leis e as rezas hão salvar inocentes crentes e heróis culpados, o fogo da vida há de crepitar em livros de feitiçaria e em páginas de diários, as seivas hão de alimentar vegetais e úteros.
o amor insiste como um prazer eternizado, uma memória viva, um poema reescrito.
como um homem que sobreviveu a raios.


01.02.2013.

Domingo, 3 de janeiro de 2013
MINHA CARA


tomara que você voe

e muito

vou adorar ter comigo

uma mulher que voe

 

não posso nem pensar

em uma companheira

que não seja alada

 

também tenho asas

tecidas e atadas

em minhas palavras

 

sei voar

e sei quanto é preciso

e precioso o ar

 

tomara que você seja

sempre a cara do futuro

o absurdo éter

que havemos

de conquistar
 

09.01.2013.

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