Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Segunda, 25 de fevereiro de 2013
PERJÚRIO



como acontece em todas as nossas, nem tudo é verdade na vida do poeta. às vezes é só uma impressão de momento, uma rusga de alegria, um lampejo de desespero, um engodo de felicidade. e dura um átimo, suficiente para grafar na folha as palavras voluntariosas, curtas e espessas, dodecassílabas e frágeis, réquiens ou elegias, poesias de poderosa ficção nos ditames dos poetas.
nem tudo é imaginação, ilusão ou mentira nos poemas. às vezes é não-ficção ou autoajuda ou catarse surrealista ou novela em folhetim o texto que brota da ponta da pena, da esferográfica, do grafite, do teclado, do lápis de cera: como acontece com todos os nossos, nem tudo são punhais ou orquídeas nos amores do poeta. vezes doses comprimidas de alegria, outras vozes aos berros e gemidos expulsando de perto toda e qualquer chance de felicidade.
como acontece e se sucede a cada momento em todos os dias, nas vidas das pessoas mais amáveis, na rotina das gentes mais sombrias, na minha e na sua, também há uma palavra sem verdade, uma verdade sem palavras, uma enorme possibilidade de nos calarmos mas uma fatal vontade de dizer o que não deveríamos.
 

25.02.2013.

Segunda, 25 de fevereiro de 2013
INTATO E ESTÁTICO



O que fica intato é o que não foi vivido. Não tocado, acariciado, esmurrado, não suado, não comido e bebido. O que está estático. Ainda bem que nosso casal amor não foi assim, que nosso casual amor não é assim, que nosso caudaloso amor é alegre e sofrido, moleque e arisco, mambembe e corisco, ainda bem que o nosso amor brinca com palavras e é sério quando sabe para o que veio e por onde andou e de tudo o que passou por sua conta e risco. Ainda bem que nosso amor é do bem e bem mexido, ritmo desde as horas públicas até os momentos íntimos, coisa que se desdobra a todo tempo em cada instante e toque e voz e estímulo. Mesmo que não seja o melhor de nós, que não mantenha em si o vigor de antes, que não contenha toda comunhão e ardor e desejos e rompantes que se espera de grandes amantes. Já que nós mesmo nem sabemos se somos tanto menos ou mais que amigos, nós que não resolvemos se nos encaramos ou nos esquecemos na próxima esquina do destino.
O que segue elástico é o que ainda pode vir a ser. Absorvido.
Absolvido.

25.02.2013.

Domingo, 24 de fevereiro de 2013
LÁZARO



passo pelas cidades como se todas fossem minhas, eu que não sou de ninguém.
passo pelas idades como se todas fossem as mesmas, eu que não sou pré-histórico, ou médio, nem futurível.
quando dou um passo à frente, me passo para trás. quando apresso os sentimentos, me perco de amar.
passo por felicidades com a rapidez de um disparo, eu que não miro tiro, eu que sou alvo.
eu que vivo de restos, que me alimento de bagaços, eu que não flecho, não pesco, não caço.
passo pelos lugares como se nascido ali, crescido além, morrido lá. eu que já me enterrei em nuvens e ressuscitei cremado.
eu que não estou adiante ou atrás, eu que não tenho ninguém ao lado.
                                                                            
                                                                    "Happiness is a warm gun".
                                                                                                     John Lennon.

21.02.2013.

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