Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 31 de maio de 2013
UM AMOR

 

meu amor é desgrenhado

coisa de maluco, coisa de coitado

 

se não acredito no amor

ele me faz condenado

se tenho fé no amor ele me põe mal olhado

 

não há final feliz nem início felizardo

o amor é sempre por um triz

eletrizando o ser que ama

como se inúmeras vezes caísse no mesmo lugar

na mesma pessoa, mil e tantos raios

 

o meu amor é alucinado

coisa de visagem, coisa de aluado

coisa que acontece e desacontece

conta de meu terço, conta no fiado

 

se eu não credito um valor

meu amor fica desconfiado

se eu ponho mais que o previsto

ele se torna exacerbado

 

o amor quer sempre um final feliz

novela pública em um quarto privado

um anjo preso em gaiola

e ao mesmo tempo um pássaro alado

 

o meu amor é um ente sem lado

sem frente, sem fundo

sem lugar nem mundo

sem mente ou mentira

sem vestes em nenhum de nós

sem cós costurado

 

o meu amor é sempre obcecado

pois quando mais ama

mais se encarrega

de bem mais clamar

quanto mais for amado

 

o meu amor é um bicho no pasto

um nicho pro santo

um dito que expressa

um verso sem rima

sem data ou limite

sem hora, sem ora, lugar

perdido e achado

 

meu amor é um crime

que não se perdoa

somente se doa

 

o amor é um filme

com uma trama tola

que a gente já viu

e ainda vai passar



31.05.2013.

Sábado, 25 de maio de 2013
VOCÊ NA VEIA

 

Sabe como você circula em minhas veias? Sabe como se renova e como envelhece, você em mim, com suas tenras brotagens e antigas sendas, com suas quinquilharias e recentes intumescências? Sabe como você me droga e assepsia? Sabe como me recobra os sentidos e me imobiliza, você com suas ressuscitações e faixas de mortes e aparecimentos e sumiços, tentações, comícios, xingamentos e dengos? Sabe de tudo isso o júbilo e o sofrimento, os pequenos e grandes tormentos, os orgasmos múltiplos, os fins de mundo e as apoteoses de todos os possíveis sambas enredo?

Creio que você sabe, com todas as águas bentas e unguentos, intuo que você sabe que cabe total e em partes, você em mim, com seus varredores de pós vasculhando as minhas velhas e recém formadas teias. Afirmo que assim se me abre assim como fruta e me torna duas metades inteiras. Uma que você invade e se farta, outra que me deixa, que me deixa sem sal nem açúcar, me deixa passar feito fim de feira.

Sabe como você me cicuta nas veias? O que me envenena e o que me faculta buscar mais saúde, mirar este resto de vida como se fosse uma vida inteira? Sabe que a sinceridade não é só verdade na grafia das palavras mas também no suor da pele e na água do olhar e na pele eriçada que te quer e clama e chama de formas tão brandas como animalescas?

Sabe que você é veneno e vacina, soro e transfusão de climas, tudo que em mim te ama e te anseia e me vaticina.

25.05.2013.

Segunda, 13 de maio de 2013
PERDIÇÃO



A perda não tem limites, sim direções. Ela consulta o pleno passado e insulta o nada futuro, perscruta o presente. E não se contém. A perda é irmã do mal, prima do bem.
Mas assim como a busca, requer paciência.
Quando a perda é de amor, geralmente, o tempo é o principal tonante de fórmulas que incluem outros muitos ingredientes: raiva e esperança, vingança e dedicação, saudade e desatino, desmaio e ressuscitação.
Pois quando um o brado lança, o outro corresponde com o silêncio e, mesmo se o outro geme, o um se nega à aliança. Mas não são dois inimigos, pelo contrário, são dois se mantendo à distância.
Mas perder não é deixar de ganhar: é perder de vista.
É deixar de ver, de conviver, de ouvir a voz, de ler a palavra e reler a pessoa, de sentir seus toques. Perder não é, não, largar: é ficar ao relento, à deriva, debalde, mas com todo sentimento. Perder não é simplesmente um não, é um complicado sim ao reverso.
Pois perco a pessoa que amo mas não perco o meu amor, ainda o represento.
E não me perco.
Mas perca - e então irá me entender - em cada centímetro e metro.
Mas não se perca, pois que eu, desde já te compreendo e velo.

13.05.2013.

Páginas
1 2 Próxima >  Última >>