Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 29 de agosto de 2013
SEM RECEITA



Dá.
Dá trabalho. Sim, o amor dá trabalho.
Machucar o alho branco, a cebola roxa, o tempero verde, salgar à gosto, acrescentar um tico de açúcar e mais os óleos virgens e os vinagres claros e ou tintos. Depois as ervas finas aromáticas, escolher entre fritar ou cozer ou assar ou separar em porções todas essas opções. E cometê-las.
Para cada elemento que vem à nossa mesa e chega à nossa boca, muito caminho teve a cana ou a lingüiça, para sair da plantação ou da pocilga e tornar-se delícia em nossas línguas.
Dá trabalho, sim. O amor dá trabalho.
E exige dedicação e paladar propício, zelo não só no tempero mas na temperatura e no tempo de maturar a salmoura, no fogo do incêndio da lenha, na altura da chama do forno, na intensidade das micro ou macro ondas de calor e ardor.
E tudo isso sabendo que o amor não deve ser somente um prato feito mas sim um vasto cardápio, uma cornucópia de salivas e sentimentos e prazeres plenos para se degustar.
E nada como um bom vinho, uma boa seiva, um leite fresco, um mel verdadeiro, um ótimo rascante, um instigante agridoce e outras palatáveis e esfoliantes sensações, gritos de pimentas, suspiros de chantili.
Sim, o amor dá trabalho. Dá trabalho sim.
Mas o amor é uma coisa a ser feita e concretada e construída e recheada e guarnecida e aquecida e afogueada e provada e, com beleza, ser bem servido.
O amor é um ágape que se come a dois. Que não tem sobra em seus serviços de quarto nem em suas sobre mesas desmedidas. Mas dá trabalho quando quebra a louça e xinga o gosto de sua própria comida, quando então se vai para qualquer restaurante ou tenta se restaurar na próxima visita.
O amor dá trabalho quando é não, o amor dá trabalho quando é sim.
Mas o amor dá.
E é alimento imprescindível.


22.08.2013.

Terça, 13 de agosto de 2013
COM TANTO

 

já que me possui

o seu amor,

posso aguardar por seu corpo,

guardar o suor nos poros,

conter a saliva na boca,

todos os fluidos em espera.
 

uma vez que mais uma vez

aprendemos que o amor

é um estertor sem limites,

posso, tanto tolo como sábio,

sentir seu corpo sem tocá-lo,

reter as dimensões

das marés do sangue,

cuidar de ter bom sono

sem privar os sonhos,

lidar com esse apuro

de apetite,

ser uma aparição de fogo-fátuo,

 

contando dias e segundos,

contanto que seja assim:

tão simples e tão absurdo,

esse amor que se admite.



23.06.2013.

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