Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 11 de fevereiro de 2014
SUPRA


o amor é um eterno insatisfeito, e se não fosse assim seria ainda mais imperfeito. no pretérito cinza, no presente opaco ou futuro luz, o amor seria só um arremedo de pretexto.
acho que o rumo do amor é ser insaciável, quero dizer que ele quer ser inimitável e infinitivamente eterno. quero crer que ele sempre quererá se ultrapassar, ir lá além de qualquer muro, de qualquer mundo, de qualquer ser ou estar. o amor namora com a falha, noiva com o equívoco, se casa com o erro. e se separa do ontem, desquita do hoje, se divorcia do amanhã. o amor é a ferro e fogo, a unha e dente, a laço e nó. mas também a beijo e rima, a sonho e delírio, a penúria e perdão. o amor dá o que não tem, pede o que não pode conter, toca o que não cabe modular ou sustenir, rouba o que não pode carregar. mas o amor quer poder. o amor é uma das mais periculosas, mortais, renitentes e deliciosas formas de vício. mas quem escreve as histórias, que passam a ser verdades, são os vencedores. e o amor quase nunca é o vencedor, mesmo sendo a vítima legítima ou o herói pirata. cada um tem a sua versão do que viu, do que sentiu, do que sofreu, do que ofereceu. e nesses particulares o amor fica em desterro. o amor é fascinante porque é por inteiro um farsante, um rato travestido de elefante, um sóbrio delirante, um bêbedo que sente cada instante que vive, mesmo semi consciente, sendo verdadeiramente amante.
o amor é um infinito de desejos inerráveis, o amor sempre será a faca e queijo, a água e vinho, a água e o óleo, a água pura e um sumo combustível inflamável.

10.02.2014.
Terça, 11 de fevereiro de 2014
CABIMENTO

amo uma mulher
que não me quer.
porque não me comporto.
porque não caibo em mim.

mas amo
e o amor acaba sendo
o maior despropósito,
um supor, um supositório
para quem, como eu,
só necessita morfina.

eu amo e dói.
o amor rói como ratos
em meus porões
e sótãos.

coisa que não se mostra
às claras -
muito menos as gemas -
bicho predador
escondido nas entranhas
de minhas vidas.

amo uma mulher
que se quer.
e é só sua.

e assim sendo
sua só, suores
de intranquilidade
e desejo, una e múltipla,

mesmo não sendo a primeira
e muito menos a última.
06.01.2014.
Segunda, 3 de fevereiro de 2014
SOLAR



nesse verão

de sol imenso

o amor não cozinha

frita nem assa

o amor desanda a massa

faz no forno

o bolo

solar


01.02.2014.

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