Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Quinta, 27 de outubro de 2016
LENDA VIVA



parece uma delícia estúpida o amor. delicado e tenso como teia de aranha, áspero e teso como língua de gato, ronronante e intenso como mar dentro a grande concha, arrogante e prepotente como um estupro.
parece uma agonia lícita o amor. assim como o tabaco e o álcool, droga social. às vezes até mata mas na maioria delas somente fere e desbasta a saúde, perverte as atitudes, enevoa os horizontes onde se veria claramente um límpido próximo dia.
parece brincadeira inofensiva o amor. como andar de bicicleta. mas jogue este jogo uma vez e você nunca mais vai esquecer. com toda diversão, prazer, contentamento, virá também o escárnio, o remorso, a dor. como se o gozo gerasse o arrependimento, como se a fortuna carregasse consigo o infortúnio.
parece uma praga incurável o amor. e é uma epidemia de contágio lento ou imediato, com fortaleza ou frágil, doença boa e má - mas quem é que quer se vacinar contra o amor?
parece uma lenda em que teimamos acreditar, parece destino inexorável pelo qual não adianta rezar, fazer promessas, implorar, se flagelar ou penitenciar: ele virá. mais tarde ou mais cedo, bem tarde ou muito cedo ele irá te encontrar, mesmo você que não busca, até você que se esconde, o amor vai e vem entre seus dias, faz que não, finge que sim, se engraça nos seus olhos, se escusa do seu corpo, sonsamente diz que jamais vai voltar, impiedosamente detém seus passos, esbofeteia sua cara, te beija com sumo de sangue e melaço.
parece uma alegria inveterada o amor. parece uma desgraça incalculável, uma felicidade que chega a doer, uma dor que parte para tornar a ser feliz, parece um desastre o amor. daqueles em que muitos se ferem mas só uns poucos verdadeiramente morrem, parece um milagre o amor. desses que nos deixam pasmos, ofegantes, inocentes, crédulos, revoltados, vingativos, céticos, endemoninhados.
mas nunca passivos, sempre apaixonados.
o amor é que é assim pai e mãe, irmã e irmão, tio e tia, avô e avó, prima e primo, padrasto e madrasta, enteado ou enteada, amigo ou amiga, parente carnal ou gente adotada?
ou assim é que somos nós, de nós mesmos bastardos?


13.05.2010.

Segunda, 3 de outubro de 2016
URDO



cansado
de começar de novo
movo
o silêncio
até ele cansar
 

quando cansado
de silenciar
quem sabe um grito agudo
quem sabe um tom primal
se faça disparar
 

uma festa de largo
um carnaval
uma roda de samba
um gemer carnal
 

um romper de águas
num temporal
uma nova demanda
sem nenhuma mágoa
 

o silêncio só
não pode
é tocar
no amor
 

ali é dor
é cruel
é crucial
eu mudo
e surdo
aos berros
e urros


27.09.2016.

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