Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta,16 de dezembro de 2016
MAL DITO

 

vivo neste estado de violência
porque a poesia me ataca
e para sobreviver
é necessário reagir

 

o poema, a letra da música
me sujeitam
e eu, sujeito à tudo
tenho que responder à altura
e me redimir
 

vivo neste ritmo de pânico
porque as palavras me assustam
me doem, me alegram, me custam
dias e noites de carnavais e lutos
de sabatinas, domingueiras e lutas
permanentes curativos
em cicatrizes de luxo
 

vivo neste êxtase de ânimo
nesta ambiência de caos profundo
e disciplina absoluta
porque a herança da literatura
é o desperdício de tudo
não dito
 

26.11.2016.

Quarta, 14 de dezembro de 2016
MÍSTICO LUDO



as palavras
não são
pedras em pé
que desabam
 

são dominós
que se casam
 

09.12.2016.

12 de dezembro de 2016
REFASTELADOS



muita coisa é escrita entre nós, às vezes platônica e outras explicitamente. o que importa, se as portas vão dar no mesmo lugar?
coisa muita nem é dita, só sentida entre nós. num sentido de sentimento e sentinela, quem sente, quem vela. quem cala, consente e se refastela. de prazer.
tanta coisa a gente se lembra, se esquece, se renova, se acontece. tanta vida a gente engendra, alvorece, desdobra, éternece. pra sempre.
todo o mundo é lugar de nós dois, embora muita vez nem estamos nele, unidos ou afastados. somos um só pensamento e somamos o que nos falta para o próximo provimento.
somos acostelados, nenhum se criou do outro, churrasco vegano, feijoada bem mais que completa, salada mista, nus em frente aos espelhos ou crus sob lençóis e cobertores que nos revelam.
tantas coisas não foram ditas, tantas outras não foram caladas. umas ficaram, tantas esquecidas, para o bem do amor, o silêncio das más palavras. para o mal da vida, resistência do erro de algumas coisas mal faladas.
talvez, alguns pensam, as criaturas energúmenas, sem voz ou escrituras, seriam mais felizes, mesmo malfadadas.
prefiro a luz que temos, entre a certeza e a dúvida, quero é mais coisa escrita, vivida, comida, bebida, flagrada, exibida, cuspida, arrotada, vomitada, beijada com ternura, tratada como rara, essa coisa entre nós que perdura e que, é sim, de nossa alçada!

 

10.12.2016.

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