Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Sexta, 21 de agosto de 2009
PARCERIA

“quando bater no coração,
sem confusão, atende!
vamos poder dizer que de amor
a gente entende.
vamos cair em cima dessa hora
agora, já:
como o pôr do sol
caindo em cima lá do mar,
como uma nuvem cai
em cima lá do Redentor:
cai de carinho
no meu amor”
Arnaldo Lazuli


coisa tão natural e das mais pervesas. na vida, que é sinuosa, surge como uma reta e certeira flecha, meta inescrupulosa. coisa fatídica, rude e rústica, não dá resposta, a outra face, não dá saída. mítica e sem pudor, coisa única.
é claro que não é o amor, não.
não: é o próprio não, fim de estação: é a morte. a pura e simples morte.
então é assim: hoje estou de não, de luto, hoje estou de morte.
xingo, brigo, luto,
com você, meu amigo, que sempre disse sim,
neste seu último momento em que eu exclamo: não!, mas que me dás de sobrepeso ou alento, sei lá, só este mesmo imenso não.


“eu vou rasgar meu coração
pra costurar o teu
vou te cantar esta canção:
o meu irmão morreu.”
(edu lobo/chico buarque)

marco/21.08.2009.

Quarta, 19 de agosto de 2009
SOBRE PONTES

haja contêineres de passado
e toneladas
de linhas do horizonte
de futuros.

mas o momento presente
é ponte.

e uma ponte é nenhum
lugar
ou tempo.

sobre
mares, rios, lagos, pistas de rodagem –
cada local
tem seu tempo e lugar, instante e estabelecimento,
marés, luas, chuvas, destemperamentos, velocidades

e uma ponte não é
nenhum tempo ou lugar.

você leu a palavra
presente
(lá em cima)
e piscou os olhos
e no que pestanejou
tudo isso já era: passado.
e a próxima linha é:
um futuro ilimitado – já
que a morte do futuro é automática.

mas você volta os olhos
para reler
e este ato
visita um passado acabado
um futuro redivivo
um presente exacerbado.

haja
lugar e tempo
haja
casa e relento
haja vida
para os caminhantes sedentos
de horizontes:
de ontens,
hojes,
amanhãs
e sempres.

(como o verbo agir),

haja

pontes!

marco/

Terça, 18 de agosto de 2009
ESPELHO, ESPELHO TEU!

Humildemente peço emprestado teu espelho.
Tomos e tomos que lesse não encontraria, bem sei, o que estou prestes a ver nesse vidro de aço, onde a vida faz passarela e não há mais tempos vividos pois todos os átomos se refazem em ciclos: presentes, passados, futuros, tudo desfila um enredo que não dá fuga à face: quer ver nos meus olhos bem mais que a flor do narciso.
Ordeiramente me posto rente ao teu espelho, quero refletir. No seu colo eu sou um romeiro frente ao seu senhor: só sentimento. Quero me sentir, me desmentir, me escoicear de verdades, como se as soubesse. Mas quando olho em teu espelho vejo tardes que noiteam, embora nas janelas dos meus sentimentos o dia seja sol a pino, eu destemido no pico do everest. Eu sucumbido no fundo do mais fundo abissal da fossa das filipinas ainda roço a vista em teu espelho e enxergo toda festa e cada chacina, cada métrica e toda desdita que amar nos reserva. Mas eu, só, quero refletir.
Humanamente me instalo nesse emprestado espelho. E dá-se que, aí, viro uma assombração de mim mesmo. É porque não me cabe o espaço que é próprio pra ti, justo pra ti, corpo inteiro. É que propriedade, justiça e justeza são coisas que aprendi contigo, espelho, a bem junto de mim trazê-las. Sei de cor que estilo e estilete são duas coisas bem diferentes. Sei de cor e alternado os ritmos de todos os tangos, de todos os mambos, de todos os mantras, de todos os sambas, sei côr por côr todos os arco-íris mais sangrados, as minúcias de meus amores homicidados, sei que não sei salvar o condenado e executar o carrasco.
Amadamente te percorro a superfície e encontro poeiras, pólens, luz de mim emprestada, e uma tabula rasa que de mim ainda teima em exigir respostas e propostas e metáforas ignóbias que me levam a nada mais do que me exibir em chagas e logo após te ceder um véu, leve ou espesso, breve ou eterno, frágil ou pesado, inferno ou céu pra ti - coiso gelado, espelho que não é meu - para que você mesmo se mire e acerte no alvo, e talvez, a este tempo já calvo, se admire.
Espelho, espelho teu, serás sempre admirável!

marco/18.08.2009.
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