Olha só!, é um blog olho no olho, quero dizer, palavra no ouvido, grito no espaço, segredo e colapso público. É pra conversar um pouco pois é conversando que a gente se entende. Um pouco. Em tempo: todas as fotografias são do mesmo autor dos textos.
Terça, 21 de julho de 2009
UM RETRATO SEM IMAGEM: SÓ SENTIMENTO.

Vi uma mulher chorar. Muito.
Bem silenciosamente, chorando muito.
Penso que por amor ou desamor, mas certamente de dor. Muita.
Creio que coisa repente e automáticamente avassaladora. Sem aviso ou prévio pedido de permissão o sentimento a conquistou, tomou posse, imperou.
Sem lágrimas ou soluços, somente uma fonte deslizando de seus olhos, francamente.
O que não me causa susto, desejo de socorro, apreensão nenhuma. Reconheço fisiológicamente o que vejo porque me reflete no fundo do olho, me arrepia todas as peles, pelos e espinha, me exerce uma força tamanha que quase que acho que aquela água é minha.
Que é a minha. Mina de sal e mágoa.
Então, só agora sei, que aquela mulher, de alguma forma talvez mais que humana, foi amalgamada a mim: amada sina, amiga involuntária e inalienável da minha vida.

marco. 19.07.2009.
Sexta, 17 de julho de 2009
DO MEU CORAÇÃO À TUA MORADIA

Lembrei de um samba antigo que diz:
Tristeza/por favor vá embora/minha alma que chora/está vendo o meu fim/fez do meu coração a sua moradia/já é demais o meu penar/quero voltar àquela vida de alegria/quero de novo cantar:/Láláiálá Láiáláiáláiála Láiáláiáláiála...

É porque o amor é também e muitas e muitas vezes, muita alegria. E até felicidade.
Mais gostoso do que coçar bicho de pé, o amor, às vezes, é mais fantástico do que assistir ao milésimo gol de Pelé, mais glorioso do que ouvir Batatinha cantando um samba novo com Baden Powell acompanhando ao violão e ainda o distinto sambando de sapatos brancos pra gente ver. O amor pode ser mais furioso do que Antonio Carlos Magalhães estapeando uma moça em plena entrada do Clube Bahiano de Tênis por ela ter gritado: ladrão! O amor pode ser mais curioso do que ver, e fazer que não se viu, um beijo de Paulinho da Viola em sua Lila, no camarim.
Mas voltando ao abstrato e às coisas e fatos que ainda não vi, mesmo assim sei que o amor é capaz, rapaz, de reter e expandir uma tal alegria e felicidade que só mesmo um deus, se eu acreditasse neles, seria o senhor do poder de animar criaturas e seres. Sei que sou, humilde mas não modestamente, somente um senhor que escreve essas linhas e prefere ser frango de abatedouro a ser galo de rinha; ser só ouvidor e não alto falante das gentes que não sabem, bem, se choram ou se riem.
Enfim, sem fim, quero é dizer que um grande samba me salva o dia, me alegra e felicita. Mas que no fim da noite, cabeça no travesseiro, ainda a ausência da tua pessoa me magoa e me contamina.

Quero de novo cantar!

"Tristeza" (Haroldo Lobo/Niltinho Tristeza)
Sexta, 10 de julho de 2009
PERDIÇÃO

É como se perder na cidade onde se nasceu e viveu toda a vida.
Perder um grande amor é assim.
Não se reconhece as esquinas, os nomes das ruas, os endereços dos amigos, os bares, os teatros, as praças, os aromas , os ventos, o salitre, as praias, as áreas perigosas,
o araribóia, o tomé de souza, a viradouro, o ilê ayiê, o tatuí de itaipú, o sargaço de itapuã.
Não se sabe mais nada de nada e muito menos se sabe quem é aquela cara que te encara no espelho. Aquele cara.
É como se ignorar e se está vivo e, se por acaso estiver, ter ainda a cumprir algum destino, desgraçadamente.
Assim é perder um grande amor.
Não se respira, come, enxerga, toca: geralmente se bebe e sonha mas somente sorvendo álcool e dissolvendo horizontes. Nada de sabor ou novos planos. Nada de tudo de bom, nada.
É assim: fui embora e esqueci (ou não tive oportunidade) de me despedir de mim. Fiquei na gare, no cais, na porta de casa, me vendo ir sem saber pra onde.
Perder o grande amor próprio, propriamente é assim.
Se esborrachar no chão do saara vindo diretamente do pico do himalaia.
Assim é perder o próprio amor, grandemente assim, enormemente ruim.


“eu não moro mais em mim”
adriana calcanhoto.

m.25/05/2009.

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